Casa dos Contos Eróticos


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Paixão de Fliperama

AVISO: esta é uma história grande. Sim, é ENORME, já aviso agora! Se você tem preguiça e não curte ler contos ricos em detalhes, sugiro que pare por aqui! Não diga que não avisei.

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Eu até era viciadinho em jogos eletrônicos, não vou mentir. Quando não tava jogando alguma coisa, ficava olhando pro céu e admirando as estrelas, o universo, que sempre me atraíram. Pés no chão, cabeça nas nuvens.. um futuro astrônomo, quem sabe? A timidez sempre me fez optar por jogar de casa sozinho, além de também não ter muitos amigos para conversar sobre planetas e constelações. Sem ninguém, quase como um astronauta navegando nos confins do espaço. Nunca fiz muita questão de socializar e interagir. Exceto que, naquele dia, não tive opção senão entrar por aquele toldo escuro e com tons de lilás pela primeira vez. Estava no fliperama que havia umas duas esquinas da minha rua, ainda vestindo o uniforme azul do colégio e com o corpo um pouco molhado, reagindo meio trêmulo ao frio do ar condicionado do ambiente propositalmente escuro. O óculos todo embaçado pela diferença de temperatura, tive que tirá-lo para limpar. Tudo porque decidi passar na padaria antes de voltar pra casa e o céu desabou durante o percurso, me obrigando a procurar abrigo, caso quisesse retornar com os pães inteiros e secos.

- "Como não vi um céu carregado desse jeito?" - me perguntei mentalmente. - E tinha que ser um fliper?"

Eu poderia ter entrado em qualquer mercadinho ou até ficado na padaria mesmo, mas não, a curiosidade venceu e lá fui eu, a cabeça nas nuvens demais para acabar voltando atrás. A chuva tinha de passar, afinal de contas. Andei por um curto corredorzinho todo decorado com personagens de jogos e já comecei a escutar o barulho característico de risadas e vozes bem altas, acompanhadas dos ruídos sonoros digitalizados. Um ambiente todo voltado ao público jovem, então só poderia estar cheio deles.

- ESPECIAL! MANDA O ESPECIAL!

Fui mais à frente e me encontrei numa sala enorme, pouco iluminada e fria, com o teto não muito alto e várias fileiras de máquinas de fliperama ligadas, cada uma com um jogo diferente na tela luminosa, umas de frente às outras. Mesmo de longe, pude ver luta, corrida, aventura, tiro, tudo quanto foi tipo de imagem e som, todos reunidos no mesmo espaço e ao mesmo tempo, executados simultaneamente. Numa dessas máquinas, a que estava mais próxima de mim, havia um grupo de moleques mais ou menos da minha idade, 17, 18 anos, alguns ainda com uniforme de escola assim como eu.

- Dá o combo, menó! Dá o combo logo!

- Finaliza, vai! Ali! PULA!

Todos vidrados no jogo de luta estilo The King of Fighters, no qual dois garotos disputavam um contra o outro, lado a lado, enquanto o resto dos caras vibrava e torcia que nem final de copa. Tímido, eu não quis chamar atenção com a minha presença pela primeira vez ali. E como também estava me segurando para descobrir todos aqueles jogos, fui andando para a parte do salão que pareceu mais vazia e menos barulhenta, onde havia alguns sofás com computadores, barzinho e mesa de sinuca, um verdadeiro covil de jogatina jovem e lazer. Num televisor distante, um filme da "Sessão da Tarde" começando, além do cheiro da chuva caindo forte no chão quente e seco do lado de fora do salão. Senti como se uma nostalgia adolescente me tomasse conta, não entendi muito bem. Conforme caminhei, não vi ninguém sentado em nenhuma daquelas máquinas enfileiradas, além de escutar somente o ruído digitalizado dos fliperamas em execução.

- "Com certeza tem aqui.." - pensei.

Reduzi o passo até avistar um jogo de corrida que era lançamento na época. Animado, peguei o troco dos pães e comprei umas fichas pra jogar, afinal de contas, ainda teria que esperar a chuva passar pra poder sair. A primeira eu perdi de bobeira, ainda não estava acostumado a jogar no volante e nos pedais adaptados. A segunda foi por não conhecer o trajeto muito bem. Na terceira e última ficha, uns 7 minutos depois de ter entrado ali, vi um vulto passar sorrateiramente pelo meu lado, com a visão periférica, e acabei desviando um pouco o foco da pista. Devagar, percebi uma figura masculina, de pele clara, segurando uma mochila e um skate, com a roupa meio surrada, estilo skatista. Mesmo a uma certa distância e disfarçando ao máximo, não foi tão difícil notar as veias destacadas nas mãos firmes que insistentemente procuraram algo dentro da bolsa de jovem-adulto, tipo universitário descolado, de bonezinho pra frente, barbinha só no queixo e calça rasgada na altura dos joelhos. Meu volante começou a tremer e isso me lembrou do jogo, no exato momento em que o cara me olhou e eu desviei imediatamente o olhar. Isso me lembrou também da timidez e da possibilidade de ter sido visto, e aí o coração acelerou mais do que o carro na tela do aparelho. Mas, felizmente ou infelizmente, outro movimento do rapaz chamou minha atenção e tornei a perder o foco, a tempo de vê-lo encontrar sua ficha no bolso da calça surrada e justa às coxas. Antes de introduzi-la na máquina e começar a jogar, falou comigo sem precisar de me olhar.

- Cê vai bater! - avisou.

Aí riu de canto de boca e deu start num jogo de luta, finalmente me olhando de rabo de olho, sendo que dessa vez não consegui desviar a tempo e isso o fez sorrir de novo. O volante vibrou forte sob minhas mãos e o carro saiu completamente da pista, derrapando sobre uma selva e explodindo em muitos pedaços, no maior estilo dos efeitos especiais que os jogos possuem. O skatista começou a rir e eu fui ficando vermelho de vergonha, tanto pela derrota quanto pela atenção, mesmo com a impressão de que ele não riu de deboche, e sim da minha reação.

- F-Foi mal! - falei.

Ele balançou a cabeça como se não fosse nada, em seguida pôs o dedo indicador na própria boca, pedindo silêncio, porém foi tarde demais. Um dos moleques com uniforme de escola, que estava reunido ao grupo lá na frente, botou a cabeça no corredor de máquinas onde estávamos e abriu um sorrisão quando o viu ali jogando desatento.

- Sandrin?

Ele virou o rosto e mudou o semblante de preocupado para mais à vontade. Respondeu o garoto, mas ainda assim foi perceptível que estava bem sem graça.

- Qual foi? - perguntou.

- Achou que ia passar batido, né?

O moleque virou e fez o anuncio.

- Chega aí, galera! O Sandrin tá aqui!

Em questão de pouquíssimos segundos, aquele barulho de vozes, risadas e zoações foi se aproximando até todo o grupo se fazer presente, me deixando acuado suficiente pra ficar só de longe observando o que estava prestes a acontecer, quase que escondido entre a fileira de equipamentos.

- Hoje a gente vai te dar uma surra, se prepara!

Ele riu animado, como se não precisasse de ter medo. Todo o contexto da situação indicou que aquele não seria o primeiro e nem último duelo entre eles, parecendo muito fácil de dizer quem sempre saíra vitorioso.

- Ih, é hoje então? Só vem, menó!

Cada um dos moleques foi fazendo fila na máquina onde o tal Sandrinho estava jogando, mas aparentemente todos foram perdendo a vez bem rápido, confirmando o que eu suspeitei: o cara era um excelente jogador. Nem precisou de virar o próprio boné pra trás, mantendo o cabelo ligeiramente loiro e curto escondido, não fosse pelas costeletas meio castanhas descendo pelas laterais do rosto de moleque adulto, crescido. A barbicha bem de leve no queixo, também clara, além do discreto aparelho nos dentes, que deu um charme bem comum ao garoto do fliperama. Ele nem teve trabalho ao vencer cada um dos outros lutadores escolhidos e revezados pelos colegas e rivais de jogo, talvez por isso eles tenham chegado ali daquele jeito propositalmente debochado e desafiador, achando que seria o fatídico dia do qual sairiam vitoriosos. Ledo engano.

Cada ficha inserida na máquina dava direito a três personagens diferentes, sendo que o primeiro jogador a eliminar o trio do outro era o vencedor. Eles sequer haviam passado pelo primeiro do skatista. Ele executava com extrema facilidade todos os combos possíveis, às vezes tirando as mãos do controle e finalizando só na porrada, desviando e se defendendo de todos os golpes aplicados com muita maestria e excelência. Com certeza estava acostumado à jogabilidade do fliperama, isso foi fácil de perceber.

- E lá se vai o terceiro!

- Aaaaa não, que isso!!

- Cês não falaram que era hoje? Cadê!? - zoou.

Amante de jogos, tímido que só e curioso pela figura daquele cara, eu não sabia se ficava mais atraído pela surpresa de vê-lo jogando tão gloriosamente bem ou se me encantava mais pela forma certeira que seus dedos giravam a alavanca e acionavam três, quatro botões ao mesmo tempo. Na tela, isso resultava em devastadores efeitos luminosos, carregado de cores e sons provenientes dos especiais executados com perfeição. No meu corpo, alguma coisa aconteceu. E no dele não foi diferente, era nesses momentos que as veias das mãos pareciam estourar de tão inchadas, com o sangue bombeado a mil por hora, no intuito de suprir oxigênio ao físico em ação. Seu rosto só denotou o quão fácil aquilo pareceu, apesar do esforço e da concentração. Ele não era forte, mas tinha braços com muques bem marcados na blusa, além do boné pra trás na cabeça, dando a impressão de que talvez não fosse tão velho, talvez uns 22, 23 anos no máximo. O último dos garotos veio desafiá-lo bem na hora que ia sair, então ele não recusou o desafio. Ainda risonho, subiu no skate e voltou as mãos ao controle do jogo. Fez uma cara de medo e olhou pro rapaz que o obrigara a ficar mais tempo. Ele ia jogar daquele jeito, se equilibrando sobre as rodas da prancha.

- Quer perder em quanto tempo? - perguntou todo posudo.

O maluco riu e não respondeu. Cada um selecionou seus três personagens e, assim que o locutor gritou o "FIGHT!", o rival do Sandrinho já disparou o primeiro especial, que pegou todo mundo de surpresa, até eu que ainda não havia entendido muito bem. Um soco brutal afundou em cheio a cara do lutador do Sandrinho e deixou a barra de vida dele quase que na metade, fazendo a galera reagir por tamanha apelação.

- UUUUH! Que isso, é hoje que tu vai perder, Sandrin?

- É hoje, ein! - instigou o desafiante. - Eu avisei!

Mas bastou que todos piscassem os olhos pro jogo inverter. Num pulo em falso que o cara deu, o boneco do skatista o agarrou e não soltou mais, eliminando o primeiro. Mal a segunda luta começou, ele foi esperto e desviou de outro soco surpresa que veio em sua direção.

- Funciona só uma vez, menó! - disse entre risadas metálicas.

O garoto viu que não seria tão simples e começou a fazer umas caras de dificuldade. As mãos hábeis do Sandrinho roletaram a alavanca da máquina duas vezes pra trás e três dedos afundaram nos botões ao mesmo tempo. A boca mordeu o lábio inferior, o suor desceu pela testa e o sorriso enorme veio assim que o resultado apareceu na tela: o lutador agarrou outra vez o oponente e só largou quando finalizou. A sequência foi tão bonita de se ver que, antes mesmo do início da terceira partida, o cara que desafiou o skatista simplesmente desistiu e deu as costas, tentando sair rápido pra não ser zoado.

- AAAAH! Cuzããão! Que arregão!

Os amigos começaram a gastar imediatamente, falando alto em tons de zombaria.

- Ah lá! O frango peidou pra tu, Sandrin!

Eles não perdoaram. Com tanta falação, a dona do lugar apareceu e deu um esporro em todo mundo por conta dos uniformes de escola. A galera foi saindo e o Sandrinho ficou sozinho na máquina, terminando de derrotar o personagem que sobrou do cara que colocou a ficha para desafiá-lo. Eu ia me preparar pra sair do canto onde estava e ir embora também, tava até suando e com o óculos novamente embaçado, mas ele percebeu e voltou a falar comigo, me olhando diretamente no rosto e causando aquela sensação de vergonha infinita, como se não tivesse simplesmente esquecido da minha presença antes de toda aquela cena juvenil começar. Esse contato visual petrificou meu corpo e também a mente.

- E você, moleque?

Não soube o que dizer, mas nem precisei, porque ele continuou falando.

- Assim não dá graça, ó!

E olhou pra tela. Seu personagem dando um soco fraco ou outro enquanto o outro lutador só apanhava, uma vez que o jogador estava ausente. Aí me olhou e outra vez senti a onda que manteve os membros imóveis.

- Joga aí! - disse.

Senti o rosto esquentando de vergonha, tanto pelo convite quanto por não ter a menor noção de como fazer aquilo. Como disse, eu não tinha o costume de jogar contra alguém assim, ainda mais naquele controle específico da máquina, que era todo adaptado e com alavanca. Continuei mudo e paralisado, mas pra ele isso pareceu engraçado, porque começou a rir e me deixou ainda mais envergonhado pela atenção e exposição. O aparelho nos dentes dele me deixaram derretido por dentro, não soube explicar bem o porquê. O rapaz não desistiu de me convencer.

- Eu te ensino se não souber, mas é molezinha! Chega aí!

No momento em que respirei fundo e me preparei pra dar alguma desculpa, a mesma moça que deu bronca nos meninos veio na direção do Sandrinho, fazendo uma cara ameaçadora que ele não percebeu a tempo.

- JÁ NÃO FALEI PRA NÃO ANDAR COM ISSO AQUI, MOLEQUE!?

Com a mão puxando pela orelha, ela o arrastou no sentido de saída do salão de jogos contra a vontade do próprio, mas nada do cara pensar em reagir. Só reclamou.

- Peraí, mãe! Tá machucando, qual foi!?

Tava explicado.

- Qual foi? Qual foi!? Esse troço estraga o carpete novo que eu troquei! Já foi um dinheirão, agora tu me vem com isso andando aqui dentro? NÃO QUERO!

Ele pegou o skate, botou a mochila nas costas e começou a ir embora. Para irritá-la, antes de sair do salão, lançou a prancha ao chão e montou, deslizando até o portão e deixando o fliperama para trás, dando largas passadas com a perna esquerda para se descolar.

- VOLTA AQUI, SEU MOLEQUE!

A mulher voltou a reclamar e eu continuei ali parado pensando em tudo que aconteceu em tão pouco tempo, inadvertidamente. Até que ela me olhou e tornou a aumentar a voz.

- Você também tá de uniforme aqui dentro, garoto? Tua sorte é que ainda não te conheço!

- Desculpa! - respondi.

E saí apressado. Do lado de fora, o tempo ainda estava ruim, mas a chuva havia se tornado apenas um chuvisco. Aproveitei e meti o pé pra casa, ainda tomado por todas aquelas sensações dominando minha mente. O pipoqueiro estava passando, aproveitei e comprei pipoca, que levei junto com o pão não tão quente assim. Algumas mães estavam pelas ruas, voltando com seus filhos das escolas, e foi isso que me lembrou da minha em casa me esperando. Quando cheguei, estava começando "Malhação", ainda naquele clima de fim de tardinha. Fui tirado desse estado pelo esporro que ganhei, que até esqueci que levaria.

- Tava aonde até agora, Ryan? Posso saber? E nessa chuva ainda?

Expliquei o que aconteceu e ela entendeu, mas ainda assim com a cara de poucos amigos. Tomei meu banho, fui pro quarto e ainda fiquei um tempo pensando no dia. Não demorou muito, liguei o computador e pesquisei vários jogos de luta até encontrar aquele que os meninos do fliperama estavam jogando. Assisti vídeos, li a história e entendi um pouco sobre como funcionavam as mecânicas, até tomar coragem para baixá-lo, ainda que fosse pra testar pelo teclado e contra o computador. Passei algumas horas jogando, até consegui um bom progresso, mas ainda não foi o suficiente para o que eu queria. E o que eu queria? Bom, ainda estava pra descobrir.

Depois desse dia em que conheci o fliperama e também o Sandrinho, minha rotina teve algumas mudanças pequenas graças à curiosidade e vontade de revê-lo. Passei a aparecer no salão sempre que saía mais cedo das aulas, mas isso não significa que me aproximei do skatista, já que não era sempre que o encontrava por lá. Assim, comecei a guardar o dinheiro que levava pro colégio só pra trocar por fichas nas máquinas e treinar, que era o que fazia quando estava sozinho. A minha intenção era chamar a atenção dele de alguma forma, mas me achei muito incapaz disso fisicamente, talvez por me considerar magro e um pouco baixo, passando quase que imperceptível aos olhos de um cara tão mais adulto e atraente quanto ele, tão descolado e livre. Sendo assim, o plano foi fazer isso através dos jogos, que além de serem uma das minhas paixões, também eram um de seus objetos de afeto. Eu estava disposto e sabia que levaria algum tempo, já que, até então, sequer consegui vencer na luta contra a máquina. Por melhor que executasse os combos, o último chefe era sempre invencível, então não tive muita pressa ou cobrança. Era bom para passar o tempo quando o skatista não se encontrava no salão. Talvez, por conta disto, nem me importei de às vezes fingir que estava jogando corrida, só pra passar cinco, dez minutos vendo Sandrinho jogar, enquanto ele tava por lá. Eu ficava várias máquinas distante, mas prestando atenção somente nele e em sua jogabilidade. A sua presença, por si só, já era algo que dominava meus pensamentos e também a temperatura do meu corpo, mudando completamente meu humor, como se pudesse ser visto a qualquer momento, notado mesmo que de longe, ou talvez eu só gostasse de pensar nessas possibilidades. Por causa desse efeito e também pela timidez excessiva, eu acabava optando por iniciar algum jogo individual, para que ninguém surgisse ao meu lado ou, pior ainda, me desafiasse. Imagina se fosse ele, então? Na maioria das vezes, eu simplesmente mudava pro de corrida ou pra um jogo de tiro, só pelo disfarce. E, a partir daí, perdia todas as minhas fichas, porque focava a atenção mais no Sandrinho do que na tela da máquina. Não havia como competir o foco entre o jogo e aquele moleque mais velho e atraente. Ainda mais quando ele não aparecia arrumado e ficava mais à vontade, só de bermuda e chinelos nos pés. A camiseta tão folgada que deixava parte do peitoral másculo exposto, com aquela divisão marcada de quem já fez um exercício ou outro em alguma altura da vida, mas parou no meio do caminho e a musculatura do corpo desenvolveu até certo ponto. Uma mistura atraente aos olhos do melhor que o corpo masculino e adulto tem a oferecer, porém com o jeitão de menino meio bobo, risonho. Naquela corpulência única que pude ver tanto um sorriso inocente de quem ri com os olhos, quanto o suor proveniente do esforço físico sendo limpado da testa com o antebraço robusto. E quando isso acontecia, dependendo da blusa, ainda poderia testemunhar a erupção hormonal de um homem que está crescendo e se tornando cada vez mais adulto. A respirada que seus sovacos deliciosos davam, com os pelos sufocados pelos muques fartos e as marcas da transpiração na roupa, eram o ápice dos meus momentos de observação do skatista. Como se não bastasse, vira e mexe acontecia dos moleques se juntarem pra tentar vencê-lo, e aí eu ficava ainda mais livre pra observá-lo tranquilamente, já que todas as atenções se voltavam à mesma tela da máquina de arcade.

- É hoje, ein! Vai perder!

- Será?

O sorriso desafiador, o boné pra trás e a boca mordendo o lábio. Sandrinho tinha pernas levemente arqueadas e peludas, assim como alguns pelinhos também podiam ser vistos no meio do peitoral parcialmente dividido, mesmo pela gola da camiseta. Suas panturrilhas eram rígidas, talvez pela prática do skate que estava sempre consigo. O sorriso fácil no rosto, os aparelhos dentários dando o ar de bobinho, a incrível leveza das mãos e dos dedos executando longas sequências de velozes comandos, mas a firmeza na pegada de quem tem certeza absoluta do que está fazendo e de como proceder para chegar ao seu objetivo: ganhar a partida, vencer o adversário.

- É, hoje não deu pra vocês! - o último soco.

- "K.O.!" - gritou o locutor do jogo.

Ninguém o tirava da máquina, não tinha jeito. Ele era o melhor jogador de luta daquele fliperama. Na minha mente, eu o endeusei e coroei, ainda sem ter noção de como sua figura crescia dentro de mim, tornando-se cada vez mais simbólica e importante. Ainda mais no contexto que eu vivia até então: na sala de aula, era comum ser lembrado pelos colegas de classe apenas na hora de ser zoado. No começo não me importei tanto, mas ultimamente estava ficando chato, e talvez por isso eu preferisse passar mais tempo ali no fliperama do que no colégio em si. Por eu ser novo, estava cercado de caras e moças mais velhas, e a todo tempo eles só falavam sobre coisas da vida adulta, tipo sair, beber, fumar, usar drogas e transar. Todas as conversas giravam em torno disso, era quando eu saía de perto e, por causa dessa atitude, fui tachado de bobão, ou "virjão", como me chamavam.

Creio que o episódio crucial que acabou me dando a maior de todas as oportunidades de contato com o Sandrinho foi no dia em que, como fazia há poucas semanas, o observei jogando por alguns minutos, ao mesmo tempo em que ele conversava de longe com a mãe, dona do salão de jogos. Papo vai, papo vem, ela lembrou de algo importante.

- Já recebeu, Sandro?

Sem virar o rosto da máquina, ele respondeu.

- Já! Por que?

- Pagou a conta que eu pedi?

Sem pensar duas vezes, o skatista largou do jogo e checou o horário no relógio de pulso, a cara de apressado e o olhar arregalado de quem não queria levar uma bronca.

- Caraca!!

Pegou a mochila de cima da máquina, lançou o skate ao chão e, na hora de virar pra sair, me olhou de relance e deu aquele sorriso amigável que dava para todos, mas que me desconsertou por completo, principalmente pelos dentes metálicos e o semblante de molecão crescido, todo cheio de jogo de cintura.

- Tá atrasado e ainda risca meu chão com esse troço!! - a mãe começou a reclamar.

Preso em sua saída rápida e agitada, alguma coisa me levou até à máquina, agora vazia, mas com o jogo ainda rolando. Observei seus personagens favoritos, marquei eles na mente, toquei a alavanca e os botões e ainda pude sentir o calor e o suor de suas mãos experientes ali impressos, meu coração disparando por conta dessas sensações. Achei melhor voltar pra onde estava, mas foi aí que, numa olhada de sorte, avistei algo na parte de cima do aparelho, bem na pontinha, prestes a cair. Tateei a mão e peguei, me dando conta de que era uma carteira. Não precisei pensar muito pra deduzir que era do Sandro, porque havia uma foto 3x4 dele logo na primeira capa do objeto. Dentro dela, várias notas de cem e cinquenta reais. Como ele tava com pressa pra pagar a conta, não percebeu o que deixou pra trás, então não tive escolha senão fazer o certo. Coloquei a carteira no bolso e saí do fliperama rumo à agência bancária que ficava numa avenida a algumas quadras dali, imaginando que era lá onde o skatista iria. Não teve erro, um pouco depois da metade do caminho, ouvi o barulho de skate no asfalto e logo o Sandrinho passou bem na minha frente.

- Ei! - chamei.

Eu sabia o nome, mas não o chamaria de cara. E também não precisei, ele virou e logo vi o semblante abatido de alguém assustado. Pelo tamanho dos olhos arregalados e pela blusa molhada de suor, já tinha dado a falta do dinheiro e com certeza estava preocupado e o procurando feito um louco, então não me demorei, estiquei a mão e mostrei o que encontrei.

- Acho que é sua, né?

Eu também estava ofegante, o óculos escorregando do rosto por conta da corrida e do suor.

- CARAMBA, CARA!

Ele segurou-me pelos braços e olhou diretamente na minha cara, abrindo um sorrisão e me dando um abraço que não esperei em nenhuma das possibilidades de aproximação física. Acho que o Sandro foi a primeira pessoa diferente da minha mãe que não se importou em me tocar e entrar em contato comigo daquela forma, estando os dois suados, ele com a blusa até colada no peitoral. O contato foi tão rápido, mas tão gostoso, que se ele não continuasse me segurando eu com certeza teria caído. Seu suor esquentou minha pele e fiquei até tonto com aquele cheiro de homem jovem em mim.

- VOCÊ NÃO IMAGINA COMO ME SALVOU! É SÉRIO!

Mas pude imaginar, só pela quantidade de dinheiro ali dentro. Ele nem contou, abriu e me olhou meio incrédulo pela maneira como alguém encontrou tanta grana e fez questão de devolver, num mundo tão grande e perdido como o nosso.

- Tem noção que meu salário tá todo aqui? Minha mãe pediu pra eu pagar uma conta, já tava doido atrás dessa carteira! Tava pensando até no que ia ter que vender pra poder resolver isso, mano!

Respirei e lembrei de que precisava continuar a conversa, caso contrário teria sido tudo em vão. Tomei um ar e, mesmo coberto de vergonha por ter toda sua atenção a mim, continuei.

- Eu achei lá no fliperama. Você saiu correndo, não consegui te alcançar a tempo!

Meu rosto queimando de nervoso.

- Cara, podes crer! Tu gosta do fliper, né?

Essa pergunta me deixou um pouco pensativo, porque não soube se ele realmente lembrara de mim ou não, e isso tinha mais a ver comigo do que com ele em si, já que o tímido era eu. "Quem não é visto não é lembrado!" foi a frase que ecoou em minha mente antes dele prosseguir.

- Vou correr antes que o banco feche, mas aparece lá mais tarde! Vou te dar um presente, pode apostar!

E deu uma piscadela com apenas um olho. Sem esperar minha resposta, virou-se e foi remando de esquerda no skate, até sumir da minha vista. Eu sei disso porque continuei ali parado e pensando em como tudo estava acontecendo, ou talvez em como eu achava que tudo estivesse tendo o sentido que eu queria que tivesse. E se o Sandrinho fosse só um cara bem legal e amigo de todos? Mesmo sabendo que já deveria estar em casa, voltei ao fliperama e fiquei lá jogando aquela mesma corrida do primeiro dia, mas, com a mente tomada de pensamentos, não consegui sequer terminar a fase entre os 5 primeiros do ranking. E, por falar nisso, o mesmo nome dominava o top de jogadores: "1- ALE, "2- ALE", 3- ALE", e por aí vai. Já tava quase desistindo de vez, quando escutei a voz do skatista vindo por trás do meu corpo, mas não diretamente a mim.

- Pronto, tá paga!

- Chegou a tempo? - perguntou a mãe, sentada ao balcão.

- É..

Continuei fingindo que estava jogando, mas não tive como não ser visto. No momento exato em que ia bater e perder a última ficha, o Sandro veio de surpresa e afundou a mão no botão de "PAUSA", causando aquele barulho de estalo. O jogo parou e ele se encostou de lado na máquina, olhando pra mim e me deixando tímido do mesmo jeito de sempre.

- Você veio mesmo, né? - disse.

Pensei um pouco e me fiz de desentendido.

- Hmm?

Ele sorriu e eu notei aquela boca mascando chiclete, a barbicha de cor clara no queixo e os dentes com aparelhos dando o charme final. Um cheiro de bubbaloo de morango entre nós, além da tensão característica de uma paixonite.

- Tenho um presente pra você, lembra?

Do bolso, tirou várias tiras de papel e me deu. Demorei uns segundos desnecessários, mas peguei uma delas e li. "VALE 100 FICHAS!". E não foi só um, foram vários. Brincando, devia ter ali mais de 500 fichas pra jogar no fliperama. Não acreditei. Não pude aceitar.

- Que isso!? Não posso ficar com tudo isso, Sand-

- Claro que pode! - me interrompeu. - Seria uma ofensa a mim você não aceitar esse presente! Até minha mãe concordou!

Pensei rápido em todas as desculpas para continuar não aceitando, mas não teve jeito. Antes que pudesse responder definitivamente, ele juntou o bolo de papéis e enfiou no bolso lateral da minha bermuda, tudo isso rindo. Do balcão, a senhora estava rindo de nós e com o rosto sorridente também, conivente com a situação. Só então o skatista olhou pra tela da minha máquina e constatou o inevitável: eu ia perder a rodada.

- Ih, mano.. deu ruim pra você, é?

E me olhou, causando aquele tremor de leve. Mas eu havia de ser mais resistente, afinal de contas, o que mais tinha agora era crédito para permanecer um bom tempo por ali. Do lado de fora, apenas o barulho dos padeiros e pipoqueiros passando pelo horário de fim de tarde. Dentro, só máquinas eletrônicas e ruídos de jogos eletrônicos.

- É! Essa não dá mais! - admiti.

Mentir para um expert em jogos não tinha qualquer sentido, então fui sincero.

- Acho que dá pra tentar te salvar! - falou.

Com o próprio corpo, chegou o meu um pouco para o lado e assumiu o comando sem pedir verbalmente. Devidamente posicionado e apenas a um botão de retornar à máxima velocidade do carro, ele me olhou outra vez e agora esperou a permissão para que encabeçasse aquela missão quase impossível de resgate.

- O que cê acha? - levantou uma única sobrancelha antes de continuar. - .Dá ou não dá pra mim? - perguntou.

Nos olhamos, ele riu pela brincadeira boba e esperou uma resposta autêntica antes de despausar.

- Bom..

Eu sabia que o cara mandava muito nos jogos de luta, mas como o ranking ali era preenchido apenas por um tal de "ALE", não o vi se livrando daquela batida aparentemente inevitável. Eu não pude subestimá-lo, mesmo numa situação daquelas, com o veículo prestes a sair da pista e explodir na floresta abaixo do terreno.

- Pode ser. - respondi. - Acho que dá!

Foi só eu terminar de falar que ele não esperou e bateu no "PAUSA" outra vez, como se fosse o próprio piloto dentro do veículo. Espontaneamente, acelerou ainda mais o carro e a batida que eu imaginei não aconteceu. Ele ficou tão rápido naquele curto espaço de tempo, que não caiu na selva, e sim numa pista secundária que ninguém havia explorado ainda, e eu sequer sabia que existia. Nela, ainda adquiriu um combustível extra que deixou o carro mais rápido, além de um atalho desembocando de cara para a faixa de chegada. Quando ele a cruzou e o jogo anunciou que era o primeiro lugar da corrida, eu não acreditei. Não soube nem o que dizer, não estava normal e ele percebeu isso pela minha cara de animação.

- Esse jogo requer prática, tá ligado? - começou a explicar.

Ainda estava finalizando a competição, olhando pra tela, quando virou e me olhou nos olhos.

- Cê tem que aproveitar e fazer o que os outros não fazem, se ligou? Aí vai pegar os bônus que eles não pegam. Questão de saber aproveitar, sabe?! Ou aproveita, ou perde a chance!

Deu um sorriso e eu disfarcei para não acabar derretendo ali. De alguma forma, sua frase tinha tanto sentido pra mim em relação ao jogo quanto em relação a ele também, ainda que não pudesse perceber.

- Não sabia que você também mandava bem nas corridas. - falei.

O coração acelerado pelo elogio disfarçado, mas foi bom porque ele sorriu ainda mais, os olhos castanhos naquele formato animado, e continuou mantendo a conversa fluindo entre a gente.

- Cê acha, mano?

Pensei um pouco e lembrei do ranking de jogadores, que só tinha o nome do "ALE".

- Não sei se é o melhor, mas manda bem mais que eu! - respondi.

Em seguida, deu-me o controle e ficou observando enquanto eu jogava sozinho. Nem preciso comentar que jogar sendo assistido pelo cara que não saía dos meus pensamentos foi uma experiência assustadoramente deliciosa. Principalmente porque, nas horas mais complicadas, ele ficou tão ansioso quanto eu, chegando ao ponto de quase pegar os controles de novo pra jogar, só pra não me ver perder. Isso resultou numa tensão na qual, de fato, chegou a tocar minha mão por cima da alavanca, mas acabou que ficamos numa espécie de impasse e isso só fez a duração do contato físico durar, uma vez que ambos olhávamos atentos à tela, apreensivos por qualquer movimento. Sua mão era maior que a minha, então me cobriu e ditou o começo, ajudando a não bater de vez com o carro nas pilastras, porém causando um acidente inimaginável dentro de mim, a ponto deu ter que me concentrar para não tremer e parecer maluco. Trocamos de via e mesmo assim ele ainda permaneceu um tempo cobrindo minha mão com a sua, mesmo sem forçar mais movimentos. Esses segundos poderiam durar para sempre, mesmo que eu endoidasse de verdade no fim de tudo.

- Agora é só seguir pela esquerda! - a voz baixinha ao pé da orelha, bem calma e tranquila, segura de si e da sugestão dada.

Ele só faltou apoiar o queixo em meu ombro, de tão próximos. Tirei de letra o resto da pista e, ao invés de assumir o jogo e o mérito pela excelente jogada, ele só sorriu pra mim e mostrou os dentes metálicos pelo aparelho, me deixando ainda mais envolvidão.

- Isso aí, mano! É assim que se faz!

Sem eu perceber, foi pra uma máquina de luta depois que viu que eu já tinha pego a manha da corrida. Lá, como sempre, ficou sozinho jogando contra a máquina, eu só o observando de longe. Durante esse tempo, consegui passar da última pista e tive a chance de colocar meu nome "RYAN" no sexto lugar no pódio, atrás de todos aqueles "ALE". O Sandro levantou a mão ao ouvir o som da minha máquina sendo zerada e comemorou comigo.

- Agora só falta tirar esse "ALE"! - falei rindo.

Sonhei alto, com a cabeça nas nuvens, como sempre. Ele olhou pra mim e riu descaradamente, sempre no tom amigável e nunca desafiador, tal qual os outros moleques que frequentavam o fliper.

- Ih, ainda vai ter que comer muito arroz com feijão!!

Aquela reação me instigou, deixou um pouco curioso para ir além.

- Você conhece o Ale? - perguntei.

Aquelas mãos ágeis giraram a alavanca do arcade duas vezes e o barulho do especial preencheu o vazio sonoro que foi temporário entre nós, casando exatamente com o ruído dos dedos afundando firme em dois, três botões de soco e chute ao mesmo tempo. Sequência bem sucedida, explosão de cores, brilhos e som. Seu personagem favorito, justamente aquele cuja especialidade era a dos agarrões de perto, executou um dos combos mais difíceis do jogo, que foi esplendorosamente exibido na tela. Só depois ele me olhou e respondeu, totalmente iluminado por canhões de pixels e animações digitais em sincronia multicolor.

- O meu nome é Alessandro, mano!

E de repente senti-me ainda mais curioso pelo skatista, como se só agora a nossa partida realmente tivesse começado. Como nunca imaginei aquilo antes? Realmente cogitei que o nome do meu primeiro colega com quem comecei a ter contato fosse Sandro.

- Você não vinha aqui antes, né? Por isso que eu não te via. A minha mãe que toma conta, mas eu que programo esses flipers daqui.

Entre outras palavras, estava conversando esse tempo todo com o técnico do local, mesmo sem saber. Ou dono, seja lá o que fosse. Ele era mais do que um simples moleque com jeito de universitário e amante de skate, com cabelos e barbicha claros e aparelho nos dentes.

- Sim. - falei. - Eu me chamo Ryan.

Antes de sair, ainda veio apertar minha mão e nos cumprimentamos formalmente pela primeira vez. Sentindo-me inspirado por sua influência e presença, voltei pra casa uma outra pessoa depois disso, totalmente afogado naquela sensação maravilhosa de estar perto dele e de ser um de seus objetos de atenção, tal qual a jogatina, mesmo que temporariamente. Em um simples deslize, criei contato com o Sandrinho de maneira rápida e efetiva, num curto espaço de tempo. Mas ainda não foi o suficiente. Dormi tão bem que acordei cedo pra escola sem nenhum cansaço ou sonolência, mesmo tendo ido pra cama tarde por causa do treino diário no jogo de luta e depois de mais um esporro da minha mãe por ter chegado tarde. Fiquei animado pela aula de biologia, que falou sobre espaço sideral e astronomia e, como sempre, me tirou os pés do chão. Eu era muito apaixonado por estes temas, talvez minha mente tenha misturado isso ao fato do skatista estar ficando cada vez mais próximo e recorrente na rotina e, por isso, consegui até mesmo ignorar completamente a implicância diária dos colegas de classe me chamando de "virjão", "bobão" e "filhinho de mamãe".

Todos os dias, antes de deitar pra dormir, joguei um pouco de luta para aprender algo mais. Mesmo aos sábados de manhã, quando geralmente acordava pra comer pão com manteiga e tomar café com leite assistindo aos desenhos matinais no sofá da sala, todo enrolado na coberta, eu optei por ligar o computador e treinar a jogatina, o óculos sempre no rosto. Ainda não havia jogado contra ninguém senão a minha própria máquina, então me faltava muita experiência pessoal. Mesmo assim, depois de ter terminado o de corrida no fliperama, com a ajuda do skatista, passei a aparecer pelo salão para aprender o de tiro, sempre na desculpa de observar o Alessandro, meu primeiro amigo. Calhou de o ar condicionado estar na manutenção num dia de mormaço forte e, pela primeira vez na vida, vi o salão de jogos iluminado e de janelas abertas, com a luz do sol entrando por todos os lados e trazendo um brilho natural, diferente do artificial gerado pelas telas dos fliperamas reluzindo no escuro frio de sempre. Os ventiladores não paravam de girar e estava bem abafado lá dentro, talvez pela cor escura dos toldos e carpetes absorvendo bastante energia. Outra coisa que vi pela primeira vez na vida foi o meu skatista favorito chegando pra ligar as máquinas, só de skate e um short molinho da adidas, além do boné pra trás e uma camiseta larga, bastante suado. Fiquei em transe. Suas coxas e pernas eram tomadas de pelos, todos bem distribuídos da melhor maneira possível, e tão claros como os da cabeça e do queixo, meio castanhos e aloirados.

- E aí, moleque? Apareceu cedo hoje!

- Não tive aula! - menti.

A nova mania era matar o colégio só pra estar ali, mas jamais admitiria isso, ainda mais pra ele. Se minha mãe descobrisse, eu estava frito! Fiquei imaginando eu e Sandro sozinhos pelo resto da tarde, mas toda felicidade durou pouco. Logo após sua chegada, apareceu uma jovem também loira e da pele morena de sol, com sardas no rosto, a primeira garota de poucas que já vi entrando por ali. De roupas curtas por causa do calor, ela veio com as pernocas de fora e parou ao lado do skatista, tendo o cabelo na altura dos ombros. Ele aproveitou e teve a péssima ideia de me apresentá-la.

- Esse é o Ryan, amor.

Ela deu um pulinho e me beijou no rosto sem qualquer aviso de que faria aquilo, como se já fôssemos amigos de longa data. Eu fiquei vermelho na hora, mas por uma sensação não somente de timidez. Houve algo mais.

- Oi, Ryanzinho!

A menina então olhou pro Sandrinho e apertou minhas bochechas.

- Você não me falou que ele era tão fofinho, amor! - ela disse.

Ele viu a cena se desenvolvendo e começou a rir sem timidez. O corpo todo suado e vibrante pelo excesso de calor. As gotas descendo pelo suor e se perdendo pela barba clara no queixo. Até as sobrancelhas seguiam o padrão eurocêntrico do Alessandro, ele só faltou ter olhos claros.

- Ryan, essa é a Milena.. - disse ele.

Eu já desconfiava do que ouviria a seguir, mas ainda não sabia o que sentiria. Até que veio o aposto explicativo de quem seria a donzela espevitada, que não parou um instante de me apertar as bochechas.

- .. minha namorada!

Dei um sorriso que chegou a doer, de tão falso que soou, porque por dentro eu tava querendo me descabelar de apreensão e nervosismo. Que bobeira! De onde tirei que poderia sentir o que senti? Ciúmes, logo eu? Esse tempo todo querendo me aproximar do Alessandro e ele já comprometido, com namorada e tudo. Isso pra não falar do dia quente, que planejei passar ao lado dele, só nós dois, o cara bem à vontade, descalço, com o boné e o short molinho no corpo suado e coberto pela camiseta. O resultado disso foi que fiquei segurando vela, ainda que de longe, porque os dois logo foram se agarrar no sofá, então me coloquei de uma posição numa máquina onde não conseguiria vê-los ou ser visto. Por conta da quentura, ainda tive o azar de quase ninguém ter aparecido no fliperama, já que os aparelhos de ar condicionado estavam na manutenção, ou seja, mais a toa ainda e na presença do casal fiquei, tendo que escutar os estalos dos beijos entre eles e sem ninguém pra fazer barulho. Por outro lado, estar em pouca gente ainda pareceu pouco agradável. Antes do horário do almoço, eu estava no mesmo jogo de tiro de sempre, sofrendo pra passar de nível e aproveitando pra descarregar a frustração nos disparos que tava fazendo, porém sempre perdendo ao final do mesmíssimo estágio. Escutei o barulho do skate e percebi o Sandro vindo sozinho na minha direção. Me preparei para fazer pouco caso dele, como se fosse uma consequência incontrolável do ciúme.

- E aí, tá ganhando?

Ele perguntou e eu fingi que estava muito focado pra dar atenção, franzindo a testa e deixando o suor escorrer no meio dela, o óculos querendo escorregar pelo rosto. Bobo eu, o jeito amigável e carismático do skatista sempre passava por cima dessas coisas. Um cara apareceu de surpresa na tela e, antes mesmo deu poder reagir, me deu um tiro certeiro na cabeça.

- Deu mole, mano! - falou.

Continuei ignorando e fui jogando com ele ao meu lado observando, até chegar novamente na mesma parte onde perdi. Dessa vez fui preparado pra passar, mas o bandido que me fez perder pareceu estar dois passos à frente, me eliminando outra vez.

- DROGA!

Bati na máquina e senti a inutilidade percorrer o corpo. Estar diante do skatista só piorou a sensação crescente. Ele então riu e me olhou.

- Posso?

Pediu, mas eu continuei nem aí, não cedendo lugar ao fliper. Fui à terceira e última tentativa e, na hora que cheguei no mesmo cenário no qual morri nas duas vezes anteriores, o Sandro apertou o dedo sobre o meu no botão e fez a arma disparar no meio do nada, em direção à uma janela. Por causa dessa intromissão, me assustei e parei de andar dentro do jogo, fazendo com que o cara que me matou aparecesse lá na frente em questão de pouquíssimos segundos.

- Ah não! - falei.

Só não percebi que o tiro que o Alessandro deu já havia o acertado, era só o corpo dele passando e caindo pelo chão. Não tive tempo nem de ficar puto, mais uma vez ele me salvou no momento certo. Pra completar, estava suando feito um touro bem perto de mim, deixando a pele ainda mais atraente e vívida, encharcada, suculenta como se pudesse ser provada. Aquele líquido de fluído corporal estava reluzindo que nem estrelas, ou de repente eu tava viajando perto demais das nuvens.

- Em jogos assim, você tem que ficar atento aos detalhes, Ryan! - me olhou.

Eu o olhei de volta e ficamos nessa, ambos sérios e sem desviar pra tela, eu sem saber o que falar, mas ainda assim meio enciumado por descobrir que o cara tinha namorada e que ela tava por ali. Como se não bastasse, ainda gostou de mim e ficou me apertando como se fosse um mascote, um chaveiro de casal. Ora essa!

- Tem que ficar desconfiado de tudo, mano! Não pode dar mole pros outros, se não cê perde. Entendeu?

Seu jeito de falar e o corpo tão próximo do meu me desnortearam, mesmo eu emburrado. As falas nunca me pareceram tanto em duplo sentido, por vestirem o contexto da jogatina e também meu sentimento por ele, afetado pela realidade do namoro com a loira. Aí o skatista empurrou minha mão na alavanca e fez mais dois disparos a esmo, acertando alvos escondidos que eu sequer havia notado até então. Fez isso sem olhar para a tela.

- Ainda não acabou, vai lá!

Deu-me o controle novamente e continuou observando enquanto eu jogava. Foi MUITO DIFÍCIL, porque ele se apoiou com o braço na máquina e expôs as axilas do corpo adulto, tomado de calor e bem diante dos meus olhos. Não parou de sorrir metalicamente, com os aparelhos presos aos dentes e o olhar acompanhando o riso. Alessandro era daqueles que você sabe que está sorrindo só pelo jeito de olhar, que muda de forma. Eu então passei de cenário e, assim que entrei no outro, já fui disparando vários tiros em tudo que vi se mexendo, mesmo que fosse parte da paisagem. Em menos de dois minutos, consegui um "PERFECT!" com bônus de pontuação, graças à dica do meu skatista favorito.

- Aprendeu, né?

- É! - respondi. - Acho que sim!

Por dentro, nem lembrei mais da situação de ciúmes, apesar de estar ciente de que teria que me acostumar a vê-lo como, de fato, ele era pra mim: um amigo de jogos. Seria a solução pra não ficar chateado com a descoberta do namoro e presença da namorada, Milena. Mas, como até pra isso eu era tímido, não esperei que ele pudesse ler facilmente meus sinais, então não forcei sorrisos.

- O que você tem?

Não esperei pela pergunta, tentei não parecer surpreso. Por dentro, me senti inesperadamente lido.

- Como assim?

Sandro fez cara de dúvida, pôs a mão na barba e a outra por baixo do braço, como se estivesse me analisando a fundo e pensando. Agiu como um amigo de longa data que está prestes a opinar sobre o outro.

- Você parece sério!

Voltei a suar feito um bicho, nervoso por aqueles olhos me fitando e procurando por explicações comportamentais e corporais. O óculos começou a escorregar no rosto, como se pudesse cair a qualquer momento, porém eu usei o dedo para tornar a subi-lo, embora muito ciente de que, um dia, em algum instante como aquele, ele acabaria, de fato, caindo ao chão. "Quando?"

- Acho que é o calor. - menti.

Ele riu.

- Quer uma água?

E antes deu responder, foi remando a perna esquerda no chão do salão, em cima do skate, voltando alguns minutos depois com uma garrafa enorme de água gelada. Primeiro abriu, virou alguns goles, que eu acompanhei descendo pelo pescoço, e, nessa golada, levou a mão à boca, revelando aquele muque tão atraente, suado e úmido pelo dia de mormaço, que me deixou pensando o quão felizarda era Milena. Depois terminou de beber e me olhou, entregando a garrafa. Bebi a água apressadamente e o agradeci.

- Nada disso, vem aqui ó.

Ligou a mesma máquina de luta de sempre e fez o convite outra vez.

- Vem jogar uma comigo pra me agradecer!

O não veio à boca, mas essa seria a segunda vez que eu recusaria seu convite, sendo que meu plano era justamente estar perto daquele cara. Será que isso ainda valia, mesmo sabendo que ele tinha namorada? Queria ter respondido não, mas vê-lo de pé em frente à maquina, com a mão estendida pra mim e me chamando pra ser seu jogador número dois foi inevitável. E a mente também não permitiu, pois me lembrou das dicas que o próprio Sandro dera para passar dos jogos dos quais não conseguia até então: saber aproveitar as oportunidades e ficar atento a todos os detalhes ao redor.

- Eu não sei.. - admiti.

Ele então sorriu bem sincero, marcando pela primeira vez as covinhas e me deixando perceber o brilho metálico refletido.

- Relaxa, Ryan! - disse bem carismático, todo bobo. - Vem que eu te ensino!

Ao ouvir meu nome sendo dito, o corpo obedeceu e parou ao lado do skatista, de frente pra máquina. Eu sabia que não poderia vencer, afinal, seria meu primeiro oponente humano, e justamente o considerado o melhor do local. Ele deu start e foi explicando tudo que eu já havia lido em casa, mas ouvi-lo falando foi outra coisa.

- É muito fácil, só um jogo de luta. Você vai escolher três personagens, aí tem os ataques normais e as sequências que resultam em combos. Mas troca de lugar comigo, antes de começar.

Por alguma razão, ele não quis ser o primeiro jogador, então ficou no segundo controle. Pegou os lutadores de sempre e, assim que começou, correu pra perto de mim, mas não me atacou. Isso me fez reagir e acabei desviando, sendo que esse é um movimento considerado avançado nesse tipo de jogo, já que requer a combinação de dois botões simultâneos, algo que nem todo novato faz com perfeição. Eu tinha certa prática por jogar em casa, mas isso não o impressionou tão facilmente.

- Pra quem disse que não sabe..

E, do outro lado da tela, seu lutador surgiu rapidamente e preparou um combo.

- Mas e desse, será que desvia?

Tão perto de mim, acho que o Sandro não esperou que meu personagem fosse agarrar o dele e jogá-lo ao chão. Foi o que fiz. Aí ele bateu de leve na máquina e me olhou incrédulo, sorrindo de um jeito criminoso e desacreditado. Agora sim eu chamei a atenção do meu skatista favorito.

- SEU SAFADO!

Conseguir surpreendê-lo só o fez ficar ainda mais solto. Jogar na alavanca do fliperama pareceu bem melhor do que no teclado do computador, talvez isso tenha facilitado pra mim, porém por pouco tempo.

- Vem com esse papo de quem não sabe jogar e manda especial em cima de mim? Ah, não! Aí não, Ryan!

Eu não o encostei mais depois disso. Sem perder o primeiro, ele eliminou os meus três, porém eu sabia que o resultado seria esse, mesmo ficando animado com o começo bem amistoso. Minha cara de bolado foi inevitável, mas ele riu e elogiou a jogabilidade que demonstrei no fliperama.

- Mandou muito, mano! Cê joga direitinho! Aposto que daria uma surra nos moleques aqui do salão com essas mãos!

E segurou as minhas com as dele, erguendo-as no ar. Estava visivelmente animado por mim, por isso a empolgação toda, só faltou pular. Mas foi nesse momento que a Milena apareceu e, ainda sorridente, ambos tornaram a se agarrar no sofá e me deixaram sozinho. Fiquei pouco tempo por ali depois disso, já tinha tomado surras o suficiente quando decidi ir embora. Mas, o pior de tudo, foi escutar aquela frase antes de sair.

- E a nossa casa, amor? - Milena a fez.

Foi K.O. em mim. Eles morariam juntos e eu acabei descobrindo aquilo sem querer, ficando totalmente devastado pela possibilidade de não mais ver o Sandro, dependendo de para onde fossem. Antes que umas bobas e incompreendidas lágrimas de adolescente pudessem escorrer pelo meu rosto abobalhado, saí pelo portão do salão e comecei a correr em direção à minha casa. Não quis pensar em nada, apenas tomar um banho, deitar e dormir no tempo frio da noite, o clima cada vez mais ameno com a chegada do meio do ano. E, a partir daquele momento, eu cada vez mais ciente de que meu tempo ao lado da minha paixão de adolescente também estava se tornando menor, como numa espécie de bomba relógio perto de explodir de vez. Não soube o que fazer, pensei que não teria como piorar, mas piorou.

Então era isso, eu estava apaixonado por um skatista que era muito simpático, o cara mais gente boa que conheci até então e com quem pareci ter chegado longe no sentido da timidez, só que ele já era compromissado. Mais que isso, ele já conversava com a própria namorada sobre a casa deles, dos dois. Além de lidar com o fato da paixão não-recíproca, teria que lidar, muito em breve, com a ausência do Alessandro na minha vida. A gente se conhecia há poucos meses, eu já era mais do que acostumado com sua companhia e teria que desacostumar, pois muito em breve ele seria um possível pai de família, quem sabe grande maridão e com outro estilo de vida. Essa sensação foi horrível. Mas foi pensando nisso tudo que lembrei dos frequentes esporros da minha mãe e de como eu havia deixado o colégio pra trás só para estar no fliper. Quanto tempo havia sido perdido para nada? Mesmo contra minha vontade, tentei correr atrás de tudo enquanto ainda pude, pra não acabar perdendo o ano letivo e atrasar minha formação no ensino médio. Fiquei na maior de todas as securas pra dar qualquer escapulida e aparecer no salão de jogos, mas lembrei do quão triste toda aquela situação me deixou, ciente do que estava sentindo pelo Alessandro. Depois de algumas semanas ausente, esperei as provas passarem e, só pela mesma curiosidade que me fez entrar por aquele toldo da primeira vez, fui até o fliperama. Era um fim de tarde agradável, entrei sem falar com ninguém e fui direto à máquina onde costumava jogar. Fiquei vários minutos sozinho no jogo de luta, a mente pensando na possibilidade do Sandro aparecer a qualquer momento, até que ouvi uma voz por trás de mim e voltei à realidade. Virei no calor da surpresa, mas perdi o fogo logo que vi quem era.

- Posso?

Esperando minha resposta ser dada para inserir a ficha, era um dos moleques aleatórios que ficavam às vezes por ali. Meu segundo desafiante naquele jogo depois de muito tempo distante. Não seria novidade pra mim, então por que não?

- Sim! - respondi.

Ele escolheu seus personagens e começamos a luta. De cara, já percebi a diferença entre ele, eu e o Sandro. Eu e o skatista não tínhamos problemas pra fazer combos, talvez pela prática, ainda que eu fosse novato e não demonstrasse a mesma perfeição dele. Os outros caras perdiam muito tempo só tentando executá-los, sendo que funcionavam apenas uma vez ou outra. Foi como se eu pudesse jogar com o tempo parado, aproveitando cada falha do personagem do oponente e usando de ataques simples pra vencer os três lutadores dele com apenas dois.

- Caralho, tu é bom mesmo, ein!

Meu coração pulou no peito por conta do elogio, mas nada sério.

- Que nada! - sorri sem graça.

Eu sabia como era chato comemorar antes da hora, então não transpareci o quão animado fiquei com a vitória. O garoto colocou outra ficha e selecionou os três lutadores mais apelões do jogo. Perdi a primeira, mas ainda assim ganhei dele com o segundo e sem dificuldades.

- Porra, vou ter que chamar o Sandrin aqui pra te tirar da máquina?

Ele disse isso e, por alguns segundos, fraquejei na minha memória e nas lembranças. Quem me dera ter o poder de chamar o skatista e ele aparecer, com certeza já teria usado esta habilidade inúmeras vezes. Enquanto isso, o resto da galera foi se juntando ao nosso redor, cada vez mais eu me divertindo ao continuar invicto nas lutas. Mais garotos tentaram me tirar, só que não deu certo. Eu fiquei mais fervoroso ao lembrar que, a qualquer momento, o Alessandro sairia do meio deles e veria que quem estava os batendo era eu, seu colega e também aprendiz, quase um pupilo. Era eu quem estava perpetuando seus ensinamentos. E então ele viria animado que nem da última vez, só que isso não aconteceu. Fiquei quase duas horas lá e nada, desisti e fui embora sem perguntar a ninguém pelo skatista.

Retornei no dia seguinte, mas continuei sem sinal do Sandro. O fliperama enchia mais pelo fim da tarde, então durante o dia fiquei praticamente sozinho. Por causa disso e na esperança de que ele chegasse, aproveitei pra testar minhas habilidades em todos aqueles jogos, agora que havia perdido o medo de fazê-lo em público. Comecei no de corrida, fui pro de tiro, passei pelos de aventura e terminei, como sempre, no de luta, mas nada do skatista aparecer, nem notícia ou sinal dele. Fui pouco mais de uma semana, quase que diariamente ao fliperama só pra encontrá-lo e nada. Durante esse tempo, joguei e competi tanto contra os outros moleques, que enchi os dedos de calos e consegui colocar meu nome "RYAN" no primeiro lugar de quase todos os jogos do salão, com exceção da luta. Mesmo vencendo os caras, não consegui desbancar a pontuação do "ALE", o skatista sumido. No último dia que fui ao fliperama, num fim de tarde frio de meio do ano, fui decidido a nunca mais voltar, caso não o encontrasse mais. Fui na intenção de devolver os bilhetes que havia ganhado quando encontrei a carteira esquecida do Sandro, uma vez que não pretendi mais voltar, então não os usaria. Nostálgico por aquela ser a última visita, guardei só uma ficha e fui em direção à máquina de sempre, pronto pra dar tchau às lutas de arcade. Por qualquer razão aparente, escolhi ser o jogador número dois, deixando a posição número um livre. Foi nesse instante que ouvi o barulho familiar de skate lambendo o chão forrado do salão. Fiquei arrepiado, mas não quis olhar, só continuei me preparando pra jogar e esperei que viesse. Escutei de longe a voz.

- A casa já tá pronta, mãe! Cê tem que ver!

Ele disse isso animado e ela o respondeu.

- Pena que seja distante, né, meu filho!?

Lembrar do que fez eu me afastar e saber das novidades antes de sequer vê-lo me deixou um pouco mal. Mas, de qualquer maneira, já havia decidido que aquela era a última vez que estava ali, então não tive como ou porquê escapar. Inclusive, poderia transformar a oportunidade num último encontro simbólico, já que me restava bater o skatista no único jogo que ele era bem melhor do que eu, àquela altura.

- Olha só..

Escutei a voz se aproximando e, ao colocar a ficha pra dar start, senti o cheiro doce do perfume ao meu lado. Ele me olhou sem virar o corpo e sorriu.

- .. quem é vivo sempre aparece, né verdade?

Ri, mas não quis olhá-lo.

- Tenha as honras. - falei e indiquei o jogo com a mão.

Tomando a iniciativa, ele entendeu o recado e iniciou a competição, dirigindo-se ao fliper e ocupando a posição de primeiro jogador. Cada um escolheu seus três personagens e esperou o começo da luta. Foi a primeira vez que o chamei para competir por livre e espontânea vontade, então havia muita coisa envolvida ali, os moleques que começaram a se juntar ao nosso redor também perceberam esse calor.

- Ih, rapaz! Quero ver, o encontro do século!

- Acaba com esse frango, Ryan!

- Detona ele, Ryan! Mostra quem manda, agora que ele foi embora!

Eles pareceram saber o que se passava dentro de mim, entendendo bem minhas vontades. O locutor deu a ordem: FIGHT! Mas nós dois ficamos parados. Ninguém queria começar. Foi nesse momento que percebi que, de repente, o Sandro estava na mesma sintonia que a minha, embora isso não fosse necessariamente romântico ou coisa parecida. Ele então falou.

- Cê sabe que tem mó tempão que eu não jogo isso, né?

- Eu também. - menti.

O lutador dele correu na minha direção e desviou, trocando de lado na tela. Eu fiquei confuso com aquela atitude, mas não hesitei, caí pra cima e o encurralei no canto direito com uma sequência simples que ele defendeu toda. Assim que meu personagem finalizou a ordem de comandos que dei, ele aproveitou o recuo e me acertou em cheio, porém sem esperar que eu conseguisse ativar a defesa mesmo depois do combo ter iniciado. Dessa vez, quem aproveitou quando o outro terminou fui eu.

- Que isso, mano!

Ele levou as mãos à cabeça e perdeu o primeiro lutador MUITO FÁCIL. Só então eu lembrei que ainda não o havia visto depois de tudo. O rosto ainda tinha aquele semblante de cara simpático que sorri com os olhos, mas agora uma barba firme e um bigodinho safado lhe cobriam boa parte. Pra completar, o Alessandro tava de terno e gravata, todo engomadinho, como se tivesse vindo de algum trabalho especial. O cabelinho loiro penteado para um mesmo lado, sem repartição, as laterais mais curtas na máquina e levemente disfarçado. Mesmo contrastando, isso deu um toque a mais ao seu estilo urbano de skatista, afirmando de vez a imagem de molecote que aquele homem sempre teve, embora mais velho.

- Cê tá mandando muito, ein!

Sem mais nem menos, deu um abraço que me desarmou por completo. Aquele foi o ato sincero de alguém que sentiu minha falta e ficou verdadeiramente feliz por ver meu crescimento, bem na frente de todo mundo. Mas ainda assim, eu sabia que não poderia ceder a tudo aquilo, afinal de contas era o skatista noivo e futuramente casado, nada mudou. A segunda luta começou e eu estava nervoso. Parece que o abraço trouxe à tona minha timidez suprimida e isso me atrapalhou. Suando mais que o normal e com o coração a mil, acabei tendo o psicológico afetado e perdi, fazendo a moçada ao redor vibrar em apoio.

- VAI, RYAN! NÃO DESISTE, MENÓ!

Na terceira, já soube que não teria mais chances, mesmo tendo evoluído à beça ao longo dos últimos tempos sem ver o Alessandro. A galera que torceu pra mim foi dispersando à medida em que a barra de vida do meu lutador foi descendo, eu levando soco atrás de chute, até a sequência de botões pressionados pelas mãos do skatista ativarem o especial que finalizou com o cenário por inteiro. Ficamos só nós dois ali parados, um de frente pro outro, eu recordando que não podia vacilar e também bolado pela derrota na frente de todos. Realmente achei que venceria em algum momento, essa expectativa gerou uma decepção que me frustrou. Era a despedida do fliperama e nem nesse último duelo consegui superá-lo, driblar meu apego, bater a minha paixonite adolescente. Não consegui bater vencer a paixão de fliperama, carregada de nostalgia e regada por diversos hormônios adolescentes, proporcionando sensações desconhecidas pra mim até então.

- O que aconteceu, Ryan? Cê tava tão bem! Com certeza ia tirar meu trio!

O skatista era tão gente fina que, mesmo saindo vitorioso, veio tentar me consolar, só que eu me senti muito irritado com a situação, ao ponto de remoer toda a distância entre nós e, bastante amargurado, controlar as lágrimas para que não caíssem. Ele colocou a mão no meu ombro e eu esquivei sem olhá-lo.

- Mas você melhorou à beça, mano! Tá melhor que eu, sem dúvidas. Só ganhei porque cê ficou meio nervoso!

Continuei mudo e lembrei que, mesmo estressado, não poderia simplesmente ignorá-lo, caso contrário teria sido o pior último encontro de todos. Controlei a voz, medi meu tom e, tentando não fraquejar, respondi.

- Mesmo assim, pô. Esse tempo todo que você foi pra sua casa nova, eu já te superei em quase todos os jogos desse salão. Só falta esse! Não é possível que não vou te superar! - desabafei.

Ele ouviu tudo com atenção e veio na minha direção com cara de sério. Ao chegar perto, sorriu e pôs a mão na minha cabeça como se fosse um mestre falando com um pupilo ainda iniciante, porém ascendendo.

- E desde quando cê tá tentando me superar, mano?

Como sempre, fui desarmado. Não tive como resistir à uma pessoa tão carismática e cuidadosa quanto ele, por mais paradoxal que isso fosse, considerando que me deixou atraído e depois sumiu. Tudo bem que eu havia sumido também, mas isso não vem ao caso. O sorriso metálico surgiu, os olhos entraram naquele estado de riso e as covinhas marcaram no rosto com alguns pelos no queixo e nas costeletas claras. Um bigodinho loirinho e saliente. Todo engomado, com o corpo de skatista bem preenchido na roupa formal, talvez um pouco mais alto e com a mão no meu ombro. Não respondi à pergunta e isso causou um silêncio que talvez o tenha possibilitado de ouvir meu coração batendo acelerado. Vermelho de vergonha como se fosse a primeira vez, virei o rosto de lado pra não encará-lo, mas ainda com a cara emburrada, e isso deu um impulso que quase atirou de vez o óculos do meu rosto ao chão. Por pouco!

- Bom.. cê tá errado, Ryan. - começou. - Primeiro que eu ainda não me mudei, ok?

A mão apertou o ombro, ele então pensou e continuou.

- Inclusive, eu andei reparando que cê tirou meu nome do ranking das máquinas daqui. E fico até feliz que tenha sido você e não um desses moleques!

Meus olhos encheram d'água, não tive como segurar. A sorte foi que ele não percebeu, continuou argumentando, tentando me convencer e consolar sem saber.

- Segundo que cê tá jogando à beça, nem parece o mesmo garotinho tímido que entrou aqui daquela vez e foi devolver minha carteira.

Foi mais forte que eu. Saber que fui notado desde o começo, ouvir da boca do Alessandro aquela carga de paixão ser transferida a mim, aliada às lembranças dele, à experiência dos jogos entre nós e às minhas escolhas de permanecer ali, sempre esperando, tudo isso superou minha resistência e a lágrima desceu firme pelo rosto. Ele ainda disse uma última frase antes de perceber minha vermelhidão e o choro começando.

- E por último que, mesmo tirando meu nome do ranking da luta, você ainda não vai ter batido todos os meus recordes desse salão. Porque eu tenho um jogo no meu computador que você nunca-

Foi quando percebeu e parou de dizer.

- O que aconteceu, Ryan? Por que você..

Aí passou a mão pela bochecha e enxugou algumas lágrimas sem qualquer hesitação em me tocar, tentar me conter. Mesmo inundado de sentimentos e sensações, eu respirei fundo e tentei me manter aos poucos. Pensei um pouco e decidi o que fazer.

- Eu só tô um pouco triste, porque..

A mão no ombro outra vez apertou e eu fiz uma escolha quando voltei a abrir a boca.

- O pessoal da escola fica me zoando e..

Ele então fez a cara de sério e me soltou, aparentemente bravo e estalando as mãos. Eu havia mentido pelo bem da nossa amizade, não estava preparado para contar toda a verdade e possivelmente nos decepcionar.

- Quem é que anda mexendo contigo!? É só me falar!

Olhou ao redor num estado de alerta e estalou também o pescoço, talvez procurando por algum dos moleques pra tirar satisfação. Fiquei surpreso por aquela reação e não quis que chamássemos atenção de ninguém.

- Não, nenhum deles costuma vir aqui. - expliquei. - E eu nem ligo, só que ultimamente tem sido chato. - tentei enrolar.

Ele então voltou a me olhar, pensou um pouco e mexeu no próprio bolso da calça social preta, tirando um maço de cigarros. Eu nunca havia sequer desconfiado que o Alessandro fumava, tampouco o encontrei com cheiro de fumo, só que o skatista também tirou um isqueiro e voltou a falar comigo.

- Vem, vamos conversar disso ali fora!

Engomado, pegou uma mochila do chão e colocou nas costas, eu indo atrás dele. Seguimos por uma das portas laterais do salão de jogos, subimos umas escadas e, atrás de um corredor escuro, saímos numa espécie de varanda no segundo andar do fliperama, só que de frente para a rua traseira do quarteirão, e não para a entrada do terreno. O Sandro fechou a porta por fora, como se não quisesse que ninguém percebesse que era fumante, ou seja, talvez escondesse isso até mesmo da própria mãe. Botou a bolsa no chão, acendeu um daqueles malvados com as mãos cercando o isqueiro e, no momento em que riscou a pedra com o dedo, o flash da chama acendendo foi como uma pausa no tempo. Eu olhei aquele rosto iluminado e fiquei chocado com tamanha beleza vívida e contrastando deliciosamente com o ambiente ao nosso redor, um sentimento enorme dentro de mim e a liberdade encontrada diante de infinitas constelações refletidas na imagem do Alessandro. Ele me olhou sem entender, ainda preso no lapso repentino de tempo pausado, e sorriu. Os olhos ficaram claros pelas chamas acesas no isqueiro, o riso metálico e de covinhas me fez bambear as pernas e, testemunhados por um canhão de incontáveis luzes acima de nós, tive apenas uma certeza absoluta: eu me apaixonei pelo skatista do fliperama.

Dali, estávamos debaixo de um maravilhoso e aberto céu noturno, tomado pela lua e por um milhão de brilhos estelares que enfeitiçaram totalmente a minha visão, refletindo em mim como num eclipse entre a astronomia, a primeira paixão e a fase da adolescência, da rebeldia e dos sentimentos extremos. Eu respirei a mistura entre o ar quente de tabaco queimado e frescor gélido da calada da noite; abri os braços e me senti completamente leve, como se pudesse ser puxado por uma daquelas estrelas no céu a qualquer momento. Estava vislumbrando o infinito e ao lado do skatista por quem me apaixonei. O Sandro quebrou o silêncio com a voz de moleque adulto.

- Conta, Ryan! Quem te chamou do que?

Senti meu corpo gelar, havia esquecido completamente daquele assunto e não soube como continuar enrolando.

- Você sabe, essas babaquices de adolescente! - tentei disfarçar.

Ele puxou uma tragada, liberou a fumaça no enorme espaço vazio diante do parapeito da varanda e me olhou sério.

- Desembucha, Ryan! Eu quero saber. E é melhor não encontrar um desses putos por aqui!

Franziu as sobrancelhas claras e tornou a me encarar, esperando algo a mais do que simples tentativas falhas de não contar nada. Não tive como evitar, só tentei ser sincero sem me comprometer muito.

- Eles.. Bom..

O nervoso surgiu por conta da timidez, mas Sandrinho riu de mim e, num impulso, provei que era mais resistente do que aquilo.

- Eles acham engraçado o fato deu ser virgem!

Saiu como num cuspe repentino, só depois de falar que o rosto começou a queimar de vergonha. Eu acabei de revelar pra minha paixão que eu era mais inocente do que ele mesmo poderia imaginar. Só que ele não reagiu, ficou normal.

- Sério?

Pensei na pergunta dele e respondi.

- Sim, eu sou virgem. Você também acha isso engraçado?

- Não, é sério que eles te zoam por isso? Aff!

Ele deu um soco na borda de cimento da varanda e olhou pra baixo, puxando mais fumaça do cigarro e tragando. Aí voltou a me olhar totalmente focado.

- E o que você responde?

Eu nunca rebati, por isso fiquei sem resposta. Ele entendeu a demora como uma possibilidade e pediu.

- Por favor, Ryan, me diz que você responde esses babacas!

- Eu nunca respondi esses babacas!

Ele levantou os braços e foi tomado por uma mistura de empolgação e leve revolta, me deixando ciente de que teria que fazer alguma coisa e que não poderia simplesmente ser zoado e ficar por isso.

- Como assim, mano? Cê tem que botar moral nesses caras, seu bobo! Onde já se viu isso?

Deu outra puxada no cigarro, amassou o bendito na superfície do vão da varanda e decidiu fumá-lo só até ali, guardando o restante de volta no maço. Aí foi até à mochila que deixou no canto da sacada, colocou tudo no bolso da frente junto com o isqueiro e ainda retirou o boné de dentro da parte maior. Botou na cabeça virado para trás e retornou ao meu lado preparado para dar uma solução aos meus problemas.

- Quando que a gente vai lá nessa escola dar um sacode nesses vacilões?

Aquelas ideias de proteção estavam me deixando ainda mais apaixonado, confesso. Mas nada superou o maior devaneio de todos, que era estar ao lado do Sandro naquele ambiente noturno e astronomicamente mágico. Era como se eu soubesse que estávamos ali escondidos apenas do nosso próprio planeta, porque, parando para pensar, estávamos numa vitrine exposta ao restante do universo. Se existissem zilhões de quilômetros entre a Terra e um outro ambiente, mas que lá tivessem seres olhando em nossa direção da mesma forma como ali estávamos fazendo, então viver era uma questão de percepção e observação. Uma mistura entre tato e perspectiva do outro.

- Tá meditando? - ele perguntou.

Eu voltei a mim, realmente estava em plena viagem. Sorri animado e apontei para cima, próximo à lua, onde jazia um brilho branco e intenso, como se houvesse uma charmosa estrela perto do nosso satélite natural. Quase um piercing sedutor anexado na lateral da boca de uma modelo sideral.

- Sabe que brilho é aquele?

Ele olhou e pensou. Aí fez que não com a cabeça, porém com um sorriso meio suspeito no olhar. Em meus óculos, o brilho do metal em seus dentes e também das estrelas nos observando e sendo observadas por nós, contempladas, apontadas, compartilhando do nosso momento raro e íntimo pela primeira vez em muito tempo.

- Ali é Júpiter! - falei.

Virei a mão numa direção um pouco mais oposta, perto do poente no horizonte tomado por morros vazios e algumas poucas favelas, onde as luzes se misturavam às janelas dos barracos e sua beleza urbana.

- E ali é onde Vênus surge pela manhã!

Sandro me olhou diretamente nos olhos, aquele charme de homem meio menino, moleque meio adulto, cara sério e ainda assim descolado, riu e perguntou.

- Gosta de astronomia, Ryan?

Quase aumentei o tom de voz.

- EU SOU APAIXONADO!

Tremi e quis completar a frase com o nome dele, porém me segurei e outra vez impedi que o óculos escorregasse pelo rosto, de tão animado que fiquei. Aí não parei mais de falar.

- Quando eu terminar o ensino médio, vou tentar faculdade para ser astrônomo, mesmo não sendo uma área muito atrativa aqui no Brasil. Imagina trabalhar com o que eu simplesmente sou apaixonado?

- Tô vendo que cê curte mesmo, ein? Tá parecendo até eu e minha paixão por fliperama!

Aquela frase me marcou por dentro, talvez pela escolha dele em usar o mesmo termo que eu para definir o que estava sentindo durante todos os últimos meses. Pra não ficar introspectivo outra vez, olhei pro skatista e perguntei.

- E você é apaixonado assim por jogos?

Outra vez ele me mostrou as covinhas e parou exatamente na minha frente. Lentamente e com as mãos, puxou a parte de cima da roupa social escura, terno e gravata, para fora da calça. A blusa branca interna soltou e, sem pressa, ele desabotoou o primeiro nó superior. Eu engoli a seco e perdi a respiração, sem saber o que fazer e o que estava prestes a acontecer. Mas os segundos deslizaram impiedosos, os dedos grossos do Alessandro entraram pelos encontros do tecidos e foram desatando todos os outros botões, parando apenas antes de chegar na altura do umbigo. Os pelos faziam uma fina trilha que descia pelo meio do tórax e continuava para dentro da tira da cueca exposta, quase como um convidativo tapete vermelho que leva à uma das atrações principais de um corpo jovial, até então só na imaginação. Ele sorriu o percurso todo, quando finalmente puxou a blusa interna para o lado esquerdo do próprio corpo e aí mostrou o motivo daquela situação que me fez suar e deixou com o coração batendo forte.

- Isso responde sua pergunta?

Tatuada no peito dele, duas cerejas desenhadas de forma quadrática, como se fossem pixels avermelhados e que me lembraram pac-man. Com dois ramos verdes e bem próximas uma da outra, a da frente bem maior que a de trás, porém ambas bem desenhadas num tamanho médio, de talvez uns 5 centímetros. A pele clara e bem definida por baixo, além do mamilo quase aparecendo. Quase me derreti, deu vontade de provar a suculência daquelas frutas tão chamativas.

- Que maneira, Sandro! Quando você fez?

- Ah, tem anos já! Tenho até que retocar, já vai começar a desbotar.

Alisou a parte de cima da tatuagem e não voltou a fechar a blusa, deixando o corpo livre para receber a maravilhosa brisa noturna, carregada pelos nossos assuntos e momentos em leve tensão íntima.

- E você, não tem vontade de fazer uma tatuagem?

Nunca havia cogitado essa possibilidade.

- Acho que não, pelo menos por enquanto. Mas, se eu fosse tatuar algo, acho que seria alguma coisa a ver com astronomia.

Voltei a olhar pro céu, procurando por cada ponto cardinal que conhecia de tantos anos pesquisando, lendo a respeito e observando mapas celestes. Alessandro passou a olhar junto comigo. Ambos fitando o mesmíssimo infinito particular.

- Um planeta, quem sabe? - perguntou.

- Por aí! Ou um cometa, já pensou? - respondi. - Acho que o mais perto que cheguei de alguma coisa assim foi um primo meu do estrangeiro, que se chama Marte.

Entendeu a piada e riu de verdade, eu indo junto naquela sensação interminável de estar bem à vontade com meu primeiro amor. Entretido e bastante empolgado, apontei num espaço totalmente aleatório e falei como se tivesse experiência naquilo, com total excelência.

- Sabe o que tem lá no final dessa direção? A não sei quantos zilhões de milhões de incontáveis quilômetros dentro do escuro absoluto?

Ele fez uma cara meio duvidosa sobre o que dizer, mas respondeu que não.

- Plutão!

Aí riu de mim. Só então me dei conta de que estava sendo um nerdão apaixonado por astronomia, falando pelos cotovelos sobre coisas que ele de repente nem quisesse saber a respeito, nem se interessasse. Que bola fora! Ainda cometi o erro de tentar me explicar.

- É sério! Pode parecer bobeira, mas é que tem uns cientistas que dizem que um dia Plutão pode voltar muito próximo do sistema solar e tal, então..

- Ryan!

Ele falou e botou a mão no meu ombro, como se quisesse me impedir de continuar no assunto. Fechei a boca e aguardei.

- Cê acha mesmo que os cientistas sabem de tudo?

- Não sei, né! Mas.. E se Plutão voltasse?

Sandrinho voltou a rir, mas sem debochar ou algo do gênero.

- Cê é apaixonado MESMO por espaço sideral. Não tem jeito. Vai ser um astronauta viciado em jogos!

A gente ficou rindo junto, o tempo completamente parado e servindo de degrau para acumular três grandes riquezas: lembranças, experiência e escolhas. Brilhando como se fôssemos parte do céu cor de safira, duas estrelas explodindo além da passagem dos segundos, bem como à beira do horizonte de eventos de um buraco negro rodopiando e desfazendo tudo ao redor. A minha mente astronômica se apaixonou pelo skatista programador e viciado em jogos, casados numa química absurda diante daquela sacada do segundo andar do fliperama. Até que a realidade emergiu de dentro do espaço entre nós, no exato instante em que o tempo destravou, Alessandro tornou a colocar a mão em meu ombro e me mostrou o quanto eu era importante para si.

- Vou te contar uma coisa que cê vai ser o primeiro a saber, mano!

O sorriso metálico preparado para conter novamente apenas o físico do cenários, sem mais metáforas siderais e buracos negros estratosféricos.

- Eu tô planejando pedir a Milena em noivado na semana que vem.

Só não avisou que seria daquela maneira deliciosamente dolorosa. Ser importante e ficar sabendo dessas coisas internas, eu não tive o controle. Só que não chorei, só fiquei parado, esperando para entender o porquê daquele comentário. Forcei o mais falso dos sorrisos para não parecer antipático a quem tanto me escutou falar.

- Queria fazer isso no meio da aula de dança dela, mas eu não tenho a menor ideia de como dançar. Cê acha que eu devo pagar uma professora pra me ensinar em três dias? Eu andei vendo uns preços e..

Eu nunca achei que teria a coragem de fazer o que fiz. Talvez fosse a mistura final de tudo que aprendi sobre aproveitar oportunidades com o Alessandro e estar ciente de que, além de futuro ex-vizinho, ele seria um noivo e excelente marido para a Milena. Minha ex-paixão muito em breve. Por que não? Me empolguei, eu sei.

- Eu te ajudo, vem cá!

E ele realmente veio, talvez pensando que fosse brincadeira minha. Passei o braço por trás das costas do skatista e encaixei na outra mão dele, porém preparado para rir e cessar a palhaçada a qualquer momento, tomado de vergonha pela tentativa. Mas não foi tentativa, foi sucesso. Sandrinho agarrou minha mão, segurou meu ombro e colocou devagar o corpo colado no meu, bem lentamente, eu nos conduzindo aleatoriamente ao redor da sacada. Ele também tomou um pouco do controle e foi aprendendo onde pisar, embora eu mesmo não soubesse o que estava fazendo, de tão nervoso que fiquei por aqueles momentos tão próximos e únicos. Sandro de boné pra trás e todo engomadinho, dançando comigo e caminhando de um lado para o outro. Eu fiquei tão entregue e disponível que, devagar, fui deitando a cabeça bem em cima daquelas cerejas feitas de pixels no peitoral dele. Senti a mão parando em meu cabelo e em seguida o queixo, como quem quisesse me confortar. Nós dois, riscando a inércia sob o céu lotado de estrelas. O coração dele batendo, a quentura do aperto e o corpo preso em mim, me cobrindo, tudo isso me fez lembrar do inevitável: apesar de feliz, aquilo era temporário. Fiz de tudo para segurar qualquer lágrima, mas a realidade sempre rompe com as nossas metáforas: nada de sideral, só real. Chegou a doer, por isso ela desceu bem teimosa pela minha bochecha e, como se fosse a maior ironia astronômica, a lágrima caiu bem em cima das cerejas feitas em pixels.

- Ryan.. você..

Ele foi enunciando palavras sem mudar muito o tom e mantendo a calma. Colado ao peitoral, escutei o timbre das cordas vocais mexendo, assim como a respiração acostumando o meu ritmo de respirar, como numa comunhão fisiológica.

- Cê não tá triste..

Eu soube. E ele também.

- .. pelo que eu acho que cê tá triste, né?

As minhas resistências estavam anuladas ali. Eu abracei meu primeiro amor como achei que deveria, incapaz de não querer permanecer mais alguns últimos minutos ali. Ele retribuiu o abraço e eu fiz que sim com a cabeça. Confirmei minha paixão de fliperama, astronomicamente embaçada em meus óculos quase caindo do rosto. A realidade me dizia que um dia eles acabariam caindo, mas quando seria o dia fatídico?

- Olha, eu só vou me mudar depois da Feira de Jogos.

Disse isso e colocou a mão por dentro do bolso interno da roupa social. Tirou então um par de papéis brilhantes e com várias informações coloridas impressas.

- E, por falar nisso, olha o que eu ganhei hoje?

Mostrou-me mais de perto e percebi que eram dois ingressos para a Feira de Jogos, um evento sobre tecnologia e lazer digital, além de cultura nerd no geral, geek e coisas dentro deste âmbito.

- Vai rolar uma competição do nosso jogo de luta favorito, então eu pensei em te chamar. Pra você ter umas boas lembranças!

- Me chamar? Sério?

Ele afastou-me um pouco com os braços e olhou sério. Aí cruzou os próprios e perguntou meio incrédulo.

- Quem mais eu chamaria? Um desses moleques?

O evento era realizado anualmente numa cidade próxima, só que eu nunca havia saído de perto da minha mãe e agora era convidado pelo skatista por quem me apaixonei ainda mais. Como negar? Aquele seria nosso último encontro antes da mudança e, como todo bom pupilo, eu estaria lá ao seu lado, sempre com as melhores das intenções, mesmo sabendo que em breve não o veria o tanto quanto antes, profundamente tocado por seu jeito brincalhão e extrovertido de ser, de agir. Prometi à minha mãe que aquela era uma oportunidade única e que iria e voltaria no mesmo dia, pra ela não se preocupar muito, sendo que ainda assim foi bastante difícil, mesmo com a minha idade suficiente para andar por aí. No fim das contas, ela aceitou e ainda assim ficou com o coração na mão, me enchendo de perguntas a todos os instantes. Normal, coisa de mãe.

Passei o resto dos dias ansioso pela feira, até que o momento chegou. O Sandro me buscou em casa de carro e, só nós dois, pegamos a estrada juntos em direção à cidade que sediaria a Feira de Jogos eletrônicos. Levei uma mochila com alguns lanches, dinheiro e celular com carregador portátil, pra tirar bastante foto. Lembrei a ele que não treinamos nenhuma vez para a tal competição e ficamos rindo disso, como se estivéssemos ferrados para o nível dos oponentes que encontraríamos lá. Em pouco menos de uma hora, chegamos e já fiquei impressionado pela dimensão do evento, com várias lonas e estandes com os mais diversos tipos de jogos e competições envolvendo jogadores amadores, iniciantes, medianos e profissionais. Filmes, livros, desenhos, mangás, gibis, HQs, tinha de tudo um pouco. Um dos monumentos que mais me chamou a atenção foi o de um anfiteatro reservado para um público específico de uma espécie nova de RPG online, ou seja, aqueles jogos onde você escolhe uma classe ou função para interpretar. Na porta tematicamente dividida ao meio por um muro enorme, as inscrições em letras propositalmente adornadas para parecerem em outro idioma.

- "EM BREVE: divisa ONLINE™".

No mapa atrás delas, um círculo representando vários biomas diferentes, tipo florestas, vulcões, praias, e completamente cercado e dividido em pedaços igualitários. Aquilo pareceu importante, como um anúncio de algo que está por vir. Até que Sandrinho me cutucou e, quando virei para vê-lo, entendi o porquê de ter me chamado. Paramos diante do telão que exibia o jogo de luta que era o nosso favorito no salão de jogos da casa da mãe dele.

- Tá preparado, Ryan?

Me olhou ansioso e apertou a mão no ombro.

- A gente bem que podia jogar junto, né? - tentei.

- Não, seu bobo. É cada um por si, cê com certeza vai tirar de letra. Já eliminou os moleques do fliper, aqui vai ser marmelada.

Quis disfarçar e olhei ao redor.

- Você só pode estar louco, Sandro. Olha o nível essa galera!

- Que nada, rapá! Confia em mim, cê consegue!

Com muita insistência dele, acabei aceitando sem pensar e o skatista inscreveu nossos nomes no pequeno torneio de luta, afinal de contas, estávamos ali para aquilo mesmo, além do fato de passarmos alguns momentos finais juntos, antes dele se mudar para longe. Eu confesso que não treinei para o evento em si, mas, secretamente, estava preparando uma lutadora que quase não via a galera usando, cuja arma principal era um chicote de longo alcance, capaz de atacar e defender por toda a tela. Ela era difícil de controlar, mas muito potente quando dava certo, só que minha experiência ainda era mediana e eu não me garantia 100%. No entretempo dos primeiros duelos, ficamos apenas observando como os nossos futuros oponentes jogavam para já termos uma ideia do que teríamos de enfrentar. Eu encarei como algo possível de fazer, pelo menos até certo ponto. A competição principal começou e caí contra um menino bem mais novo, que tava ali só pela graça de alguém que queria tirar fotos dele. Ganhei facilmente e isso me deu uma falsa sensação de facilidade, que fiz questão de ignorar por achar que poderia ser cedo demais, até que chegou a segunda oponente, uma menina com cara de brava e que tinha as mãos mais velozes que já vi. A minha vantagem, porém, era ser muito mais assertivo do que ela, que tentava duas ou três vezes a mesma sequência até ter sucesso. A pressa era inimiga da perfeição e a vitória foi minha. O Sandro também pegou oponentes fáceis e foi passando livremente dos níveis no ranking, chegando em primeiro de forma quase que lendária e deixando todo mundo estarrecido, sem qualquer dificuldade. De tanta empolgação, quase não percebi que, também jogando sem grandes vacilos, acabei ficando em segundo. Foi quando olhei pro telão e vi o duelo final ser anunciado, totalmente inadvertido de que aquilo aconteceria em qualquer um dos vários universos paralelos existentes além do tempo-espaço.

- O CONFRONTO FINAL, MINHA GENTE! DE UM LADO, SANDRO, O INVICTO! DO OUTRO, RYAN, O SEGUNDO! UMA SALVA DE PALMAS, POR FAVOR!

O locutor ficou aflito no microfone, até mais que eu, se é que era possível. Ali, no meio de nossa despedida imaginada por mim e promovida por ele, estávamos prestes a competir. Não havia mais volta, eu tinha que mostrar de uma vez por todas que era o melhor discípulo do meu skatista favorito, caso contrário, não teria maior e melhor oportunidade. Assim, estalei os dedos e me preparei, tentando conter a carga de adrenalina se apossando do meu corpo. Do outro lado da pequena arena, ele olhou para mim e sorriu animado, refletindo o brilho metálico dos aparelhos no dente, mas de um jeito tranquilo e totalmente despreocupado com ganhar, como se só quisesse me ver sorrindo. O contador começou a girar.

- 5! 4!

O nervoso me dominou por completo, mas talvez fosse o essencial para espantar qualquer calmaria. Se tinha que lutar, lutaria pra valer.

- 3! 2!

Alessandro colocou o boné pra trás, esfregou as mãos como se estivesse preparado para tudo que estava por vir e as posicionou em seguida nos ganchos do controle da máquina de arcade.

- 1! FIGHT!

No modo competição, o processo era diferente. Ao invés de escolher três lutadores logo de cara, cada um escolheu apenas um por round, porém ainda sendo três lutas. O primeiro a eliminar os três primeiros do outro, era o vencedor. Sendo assim, escolhi meu primeiro e ele o dele. Eu parado no canto de jogador número dois, à direita, por estar em segundo lugar, e Alessandro na primeira posição, à esquerda na tela. A luta começou e, muito nervoso, percebi que o Sandro pulou ao mesmo lado que o meu, como sempre fazia e eu nunca entendi bem o porquê.

- O ATUAL INVICTO DECIDE COMEÇAR PELO OUTRO LADO, AMIGOS E AMIGAS! E LÁ VEM ELES! - o narrador se esgoelou no microfone, deixando todo mundo a mil.

Tomei coragem, fôlego e fui pra cima dele com tudo, encurralando-o num canto, mas sem sucesso nos ataques. No primeiro recuo que meu lutador deu, ele aproveitou essa oportunidade e deu um agarrão que não consegui defender.

- Porra!

- AAAAAH! - a torcida ressoou.

Bati com a mão nos controles, ciente de que tinha dado o pior mole. Ele emendou sequência atrás de sequência e eu desisti do primeiro já daí.

- NÃO, NÃO, NÃO, MINHA GENTE!

Tremendo, selecionei a segunda e fiz meu máximo pra não perder rápido, mas foi até mais fácil do que na primeira luta. Pra ele, porque perdi pela falta de estabilidade e isso trouxe a galera ao redor à loucura, o locutor narrando tudo a mil.

- E RYAN PERDE O SEGUNDO! SANDRO SEGUE INVICTO, INACREDITÁVEL!

Na hora de escolher meu último herói de briga, pensei bastante e hesitei mais ainda. Se era pra perder, ao menos eu tentaria com o mais difícil: a mulher do chicote. Foi tudo ou nada, não tive o que temer.

- UUUUUUH!

A moçada ao nosso redor vibrou quando a escolhi, todos bem cientes de que se tratava de um personagem nível avançado de controle, inclusive eu mesmo reconheci isto e tentei não me arrepender da decisão.

- E ELE OUSA NA ESCOLHA! NÃO ESTAMOS VENDO ISSO, SENHORAS E SENHORES!

A luta foi liberada e, confiante de que ia ganhar, o Sandro pulou pra cima de mim como fez nas outras vezes, preparado para passar ao outro lado da tela. Sem pensar que daria certo, me protegi como se tivesse esquecido que ele poderia me agarrar. Deixei que chegasse bem perto e lancei o chicote bem nas pernas, derrubando-o e puxando pra mim.

- OOOOOLA! - todos gritaram.

Fiquei tão animado por tê-lo acertado que me empolguei e emendei mais dois combos seguidos, que ele fracassou em defender e finalmente perdeu seu primeiro personagem sem sequer me tocar.

- Boa, Ryan! - pude escutá-lo dizer do outro lado da arena.

O skatista selecionou o segundo, um de seus melhores, e veio pra cima, trocando de lado no telão. Mas eu tinha vantagem, com ataques que pegavam atrás e na frente numa só tacada, me protegendo por completo e sendo ofensivo na medida ideal. Joguei o lutador dele pro alto e sentei a mão com tudo, aproveitando pra tirar o máximo de vida possível, só que ainda restava bastante.

- UUUUUUU!

Quando ele caiu no chão, reagiu rápido e já me bandou, prendendo ao solo e dando cabeçadas que foram reduzindo minha energia a quase nada, bem lentamente. À cada porrada, mais tremura por parte da torcida ao redor.

- LEVANTA, RYAN! LEVANTA!

- SAI DELE! PULA! CORRE! DESVIA!

Isso me deixou um pouco nervoso, ainda mais vendo que só estava perdendo e nada mais. Quando a barra de vida ficou em 10%, finalmente me livrei e acertei um combo intermediário, que abaixou a dele a 20%. Ele lançou um ataque a distância, tipo mágico, e veio pra cima, sendo que eu desviei a energia de volta em sua direção e lancei outra vez o chicote, que foi muito mais rápido e o agarrou, trazendo-o em direção à própria magia repelida e finalizando o lutador de forma inacreditável.

- EEEEEEEE!

Até o locutor gritou de ansiedade, eu completamente perdido de nervoso pela última luta que começaria agora. Pra mim, já tava perdido. Eu recuperei vida só até 25%, ele estava completo e aquele era seu melhor personagem, justamente o último. O juiz estava prestes a liberar a partida, até que me perdi em pensamentos e foquei no telão, bem paciente e atento. Sem querer, enquanto o duelo que decidiria o próximo campeão pelo menos por um ano estava para ser anunciado, eu vi além dos pixels digitalizados. Enxerguei um padrão de comportamento no skatista e em sua jogabilidade muito próxima. De alguma forma, eu soube que o Sandro começaria pulando para o meu lado logo que a batalha fosse liberada, como sempre fez em todas as vezes que jogamos. Lembrei dele andando de skate e reparei em como remava com a perna oposta à maioria dos skatistas que observei. Isso me fez associar sua posição de corpo com a posição do lutador parado diante do meu. Foi quase um estalo na minha mente quando o narrador gritou e eu só tive tempo de subir o óculos na cara.

- LUTEM!

Não teve erro, o Alessandro pulou pra mim e eu lancei a ponta do chicote certeiro no pescoço do personagem. Eu disse NO PESCOÇO, não na perna, então o dano foi maior. Preso, trouxe ele a mim e dei vários chutes seguidos, arrancando boa parte da vida.

- UUUUUU! BOA!!

Eu havia desvendado o segredo: Sandro era canhoto, por isso não gostava de começar do lado usual onde começava, sempre preferindo ser o segundo jogador. Comecei a usar este conhecimento ao meu favor, não deixando que o esperto trocasse de tela, sempre o cercando e enchendo de porrada na medida do possível. Ciente de que o lutador dele era primordialmente efetivo em curtas distâncias, usei e abusei do alcance do chicote, apesar de também acabar apanhando um pouco. Isso tudo foi puro nervosismo e óculos escorregando até o momento em que ambos acertaram especial ao mesmo tempo, após duas sequências de roletas e botões apertados SIMULTANEAMENTE nos dois lados da mesma arena. As duas barras de vida estavam em 5%, quem levasse primeiro estaria eliminado. O efeito brilhante e branco tomou conta do telão e tudo sumiu.

- EU NÃO ACREDITO!

Fechei os olhos e não olhei pra mais nada. Ao redor, ouvi fogos e começou uma chuva forte de papéis picados e brilhantes. Muito barulho, muito grito e animação. Só então tomei coragem o suficiente para respirar e voltar a olhar. Na tela, ambas as personagens caíram no chão, mas somente uma levantou. O chicote impune na mão, a pose de vitória e meu coração simplesmente parado, a consciência latejando em meu interior como se aquela realidade nunca tivesse sido programada ou planejada. A minha lutadora fez uma pose de vitória e o mar de gente desabou. A próxima coisa que senti foi o abraço forte do Sandro me tirando do chão. O choro veio nos olhos por causa da emoção de tê-lo sempre comigo, ainda mais naquele momento importante.

- PARABÉNS, RYAN! EU FALEI, NÃO FALEI! VOCÊ É O MELHOR, MANO!

Tudo que eu quis, tudo que programei. Sem reação, apenas os solavancos dele me jogando pro alto e o resto da galera reunindo ao redor. O locutor fora de si repetindo meu nome, até que, num pulo, aconteceu algo fora do padrão, mas que esperei por muito tempo: meu óculos caiu no meio da multidão pulando e ninguém percebeu. Tentei dizer algo, porém foi impossível em tanta algazarra. Olhei pro alto e observei aqueles brilhos descendo como se fossem estrelas me recebendo, ou de repente minha paixão e miopia estivessem me elevando aos céus. Superei o homem que tanto amava no nosso jogo favorito. Talvez agora me sentisse menos mal por deixá-lo ir, ou de repente era o que eu mais queria imaginar, pra poder fingir que minha tristeza se resumiria apenas a isso.

- PARABÉNS,CARA! VOCÊ MERECE!

No microfone, o locutor declarou:

- SENHORAS E SENHORES! TEMOS UM NOVO CAMPEÃO ENTRE OS CAMPEÕES!

Deram-me um troféu simbólico, além de uma quantia em dinheiro pra mostrar o quão bem mandei, tudo parte do tratado no torneio, sendo que eu nem sabia de nada. Ainda coloquei meu nome no ranking oficial e, dentro de um ano, quando aconteceria a próxima edição da Feira de Jogos, já estava convidado a retornar para competir novamente e tentar manter meu legado. Eu estava realmente sem palavras até então, e só fui ter a ficha caída quando ele tirou uma foto nossa no celular e me mostrou, eu com o troféu, a cara totalmente inexpressiva e ainda assustado.

- SORRI, MANO! Pensa no que cê vai poder jogar na cara daqueles malucos da tua sala!

Ele estava muito mais feliz que eu, foi a partir daí que comecei a entender o que havia acontecido. Eu ganhei dele no jogo de luta, numa competição oficial, durante nossa despedida, o primeiro e último encontro, além do fliperama. Felicidade e tristeza ao mesmo tempo, porém fui o máximo de positivo o possível.

- Você tem razão!

Alessandro riu ironicamente e balançou os ombros, a gente ainda caminhando pelo espaço do evento e procurando por coisas legais para fazer, comer e até gastar parte daquele dinheiro. Tiramos fotos com alguns outros jogadores, competimos nuns estandes e paramos para lanchar e conversar.

- Parando pra pensar, agora eu tirei seu nome oficialmente de todas as máquinas! - zoei.

- Nem todas, lembre-se! - me avisou apontando o dedo.

- Você diz isso só pra não admitir que agora eu sou o melhor!

Ele então veio e fingiu que me daria um cascudo. Aí riu e voltou a dizer.

- Sua mãe vai ficar feliz, ein? Não queria deixar você vir e cê vai chegar com uma grana dessas!

Pensando neste comentário, até sugeri de repartir o prêmio, mas ele se recusou educadamente. Como forma de simbolizar que ele teve participação no meu mérito, dei-lhe o troféu que recebi, mas nem disso o Sandro fez questão.

- Cê é o fera agora, Ryan! É bom que aquela galera do salão saiba disso enquanto eu não estiver, então vê se trata de botar moral!

Passou o braço por trás dos meus ombros e fomos caminhando devagar. Eu comecei a voltar um pouco ao clima meio chateado antecipadamente, porém ainda no efeito pelos acontecimentos do dia maravilhoso, principalmente quanto mais perto do fim ficamos. Lá pro final da tarde, quando o céu ficou entre o alaranjado e o safira usual, decidimos voltar pra casa depois de tanto tirar fotos, comer besteira e visitar estandes com outros jogos e competições, mas nada tão sério ou significativo. Lembrei-me do óculos quebrado quando, da janela do carro, já na estrada de volta, observei as estrelas e só vi borrões. Além do retorno à realidade, estava limitado em fazer o que mais gostava quando batia a introspecção. Dirigindo, ele me percebeu como se já entendesse de tudo.

- Que foi?

- Ah, não é nada.. - menti.

Mas Alessandro já era craque em perceber essas coisas. Olhou meu rosto e notou a diferença.

- O que houve com seu óculos?

- Acho que caiu na hora da bagunça.

Ele pensou um pouco.

- Bom, agora você pode fazer um de 5 mil "pila" sem se preocupar!

E riu, eu o acompanhando. Mas mais que isso, Sandro foi além na interpretação que tinha de mim.

- Não consegue admirar o céu, né? Entendi!

Na mosca. O percurso foi mais falado pelas nossas mentes do que pelas bocas, seja lá o que estivessem imaginando. Eu senti frio e quase peguei no sono, cochilando no carona e tentando não pensar muito na longa distância que teríamos dentro de pouquíssimos dias, bem maior que a do resto do percurso em si. Se o caminho fosse um quadro em branco, nossos pensamentos diante dele seriam a tinta escura que pintaria todo o céu brilhante e tomado de significados por trás da origem de tudo, do começo da paixão inclusive.

Quando voltamos à nossa cidade, ao nosso bairro, já era madrugada, então as ruas estavam vazias e a maioria das casas já apagada ou com apenas uma ou outra luz acesa. Ao parar o carro dentro da própria garagem, Alessandro me deixou preocupado com a possibilidade de ter que ir andando com aquela quantia de dinheiro até em casa. Ele então saiu do veículo e me cobriu as costas e os ombros com a própria jaqueta, por conta da temperatura amena de meio do ano. Abriu a porta do salão de jogos, que vi pela primeira vez naquele horário, e foi tateando a parede até encontrar o quadro de energia. Ligou então algum disjuntor e me deixou vislumbrado. No escuro completo, as luzes despertaram como se fossem galáxias iluminadas no toldo escuro. Pela noite, o salão de jogos ficava escuro. Frio, escuro e colorido, aberto somente a mim, enquanto o skatista veio devagar e me puxou pelo braço.

- Quer mesmo ver as estrelas, né? Então vem cá!

Andamos até o final de um dos corredores com máquinas enfileiradas e, disfarçada por sob o toldo escuro, ele girou uma maçaneta e abriu uma espécie de porta de um cômodo oculto aos olhos, mesmo durante o dia. Nunca havia reparado naquele espaço por ali. Entramos e uma luz negra acendeu acima de nós. Ele encostou a porta e me deixou livre naquele quartinho. Tapete acolchoado no chão, tão frio quanto o salão e um agradável cheiro doce e envolvente. Tudo escuro e brilhando. Alessandro então passou por mim e pela cama de solteiro, caminhou até o notebook e mexeu no mouse, carregando a tela que já estava ligada. Curioso, caminhei ao seu lado naquele ambiente totalmente sideral e silencioso, inóspito, aí ele me deu o lugar e abriu um jogo diferente, aparentemente de nave. A união do meu universo ao seu, o útil misturado ao agradável de maneira totalmente única.

- Cê não quer me superar? - falou baixo e sério. - Esse é o último jogo!

Aí levantou, apertou um botão na parede e uma espécie de lâmpada cilíndrica e giratória foi acionada no teto. Ela era cortada por fora do vidro com várias formas diferentes e desenhadas, refletindo assim, pelas paredes do quarto, uma representação artificial do que seria a via láctea. Sandrinho sorriu o riso metálico e me mostrou as suas próprias estrelas e constelações pessoais, todas ao alcance das mãos. Eu fui abaixando e me sentei no tapete do quarto, querendo observar e contemplar o escuro a partir do todo, de baixo a cima. Ele fez a mesma coisa e sentou diante de mim, ficando cara a cara.

- Você..

Não consegui terminar o resto, porque entendi que tudo aquilo fora planejado por ele, na intenção de continuar me surpreendendo ao longo daquele dia maravilhoso, incluindo a madrugada. Nenhum segundo desperdiçado, o tempo-espaço prestes a voltar a ruir a qualquer sinal subjetivo entre nós. Tudo simplesmente pareceu muito possível dentro daquele ambiente totalmente astronômico. Ele então começou a falar baixo e bem calmo.

- Eu acho que se Plutão voltasse, Ryan, a gente não estaria aqui pra ver.

Lembrou do assunto daquele dia e enunciou como se entendesse. Só então levei em conta o quanto todos os ambientes daquele lugar remetiam ao espaço em si, desde o salão de jogos até o quartinho esquecido no final do corredor, passando pela varanda onde dançamos lentamente pela primeira e possível última vez. Onde também o respondi admitindo meu sentimento de saudade pela distância a emergir entre nós nos próximos dias. Só que, foi isso, exatamente isso que não levei em conta. Quando você tá no espaço, proximidade acaba sendo relativa, afinal de contas, o que é a dobra espacial? Dentro daquele quarto não foi muito diferente: tudo escuro, luz negra, galáxias e estrelas de luz branca circulando devagar pelas paredes, poucos móveis e em nossos olhos. Perto, longe, não importa.

- A menos que fôssemos corpos celestes, né, mano? Ou imortais!

- Corpos celestes? - pensei um pouco. - Você tem razão. Tipo o que?

Tempo também para e deixa de agir, por isso tudo durou infinitamente. As responsabilidades são corroídas como meros detalhes sendo derretidos pelo vazio concedido a quem tem o poder de metaforizar. A metáfora é a língua do subjetivo, foi assim que aconteceu entre nós. E de repente, não havia mais chão. O solo, a gravidade, tudo foi anulado por uma força maior e emergente entre a gente.

- Eu com certeza seria um planeta, refletindo luz por esse aparelho. - apontou pra própria boca e sorriu, chegando perto de mim para que eu visse mais de perto.

Senti o hálito fresco e quente passar em meu rosto e até o vácuo me arrepiou as pernas.

- E eu? - perguntei curioso.

- Cê seria tipo um cometa. Meio tímido e escapando pelos cantos; aparecendo vez ou outra, mas nunca passando despercebido.

Alessandro usou a parte de trás da mão grossa e habilidosa de fliperama para tocar o meu rosto. E quando ele fez isso, foi como se um milhão de supernovas explodissem em minha pele, trazendo à tona uma catálise extraordinária do que é misturar astronomia, adolescência e primeiro amor. As bocas se tocaram em seguida, então fechei os olhos e senti a língua dele procurando a minha, pedindo passagem e buscando pelo contato. Elas se cumprimentaram e deram início à dança realizada entre galáxias que pretendem se unir em milhões de anos luz no passado, no presente, no futuro, pouco importa onde ou quando. Na escala universal, TUDO. VIRA. DETALHE. Saber passa a não significar nada, eu soube bem disso, e daí nascem até os paradoxos. O nosso beijo quebrou qualquer paradigma científico, com o perdão do excesso de metáforas. Mas, com a cabeça acima das nuvens, além da hierarquia do céu e não me abaixando para nenhum outro príncipe ou rei, eu não seria eu se não transformasse em cosmologia tudo que nasceu naquele escuro, banhado apenas por um canhão colorido e refletindo pontos brilhantes, circulando lentamente pelas paredes. Projeções de estrelas, constelações e galáxias ao toque e alcance das mãos e dos lábios, dentro do quartinho escuro e frio, localizado ao final do salão de jogos. O cenário ideal do nosso primeiro e duradouro beijo, que foi seguido pelas minhas mãos afastando o rosto do Sandro momentaneamente, dando pausa à continuidade existencial do mesmo. Eu o encarei sério e ele não entendeu, sorrindo com aquele aparelho nos dentes.

- Que foi? Não tá me enxergando também?

Aí brincou e me beijou em selinho, como se me acostumasse com aquela situação entre nós, os olhos no semblante de riso e a barbicha passando em meu pescoço, junto com o nariz no meu. Abri a boca e deixei que entrasse, era o que queríamos. Ele o fez, tornando a mexer de um lado para o outro, ambos imersos no cômodo espacial da casa da mãe dele, em completa sintonia e sinergia, vibrando na mesma frequência e intensidade. Ali, no encontro dos lábios, nenhuma lei da física ou da astrofísica haveria de ter qualquer efeito. A paixão ardente era a única regra possível, até as estrelas refletidas pelas paredes testemunharam isso. Ficamos de joelhos e, parado de frente pra mim, o Sandro tirou minha blusa sem parar de me beijar, começando a remover a própria logo em seguida. Mais velho, ele me mostraria e conduziria de acordo com o que era pra ser feito. Nós começamos a amassar ainda mais, quase caindo novamente, ele com o corpo colado no meu e girando o rosto sem parar de um lado para o outro, dentro de mim com a boca, me tocando internamente e deixando sentir o quão metálico poderia ser seu paladar, com leves mordidas bem localizadas, até o ponto no qual, de tanto brincar, os lábios incharam e outra vez nos separamos.

- É que não consigo acreditar! - falei.

Ele riu e voltou a ironizar a situação, ainda de forma divertida.

- Só porque os cientistas ainda não descobriram nada das estrelas do céu da sua boca?

Se não fosse o futuro noivo dentro de poucos dias, ele poderia ser o romântico ideal, ainda que com outra pessoa.

- E onde estava esse cientista esse tempo todo? - perguntei.

Ele riu e me deu um beijo estalado e romântico, permitindo que os lábios se conectassem momentaneamente, dentro daquela nova perspectiva de tempo criada entre nós: a pausa. Total inércia, só sentimento sendo catalisado e dando impulso a corpos celestes como os nossos, em movimento de rotação e translação ao redor do mesmo eixo em comum. Um sistema binário de sensações, no qual o Alessandro foi deitando e colidindo por cima de mim, se apossando do meu corpo e preparado para causar uma catástrofe nível planetária, no melhor sentido desse termo. Afinal de contas, é dos choques que nascem as novas estrelas e planetas! E tudo ao controle das mãos jogadoras do skatista, experientes no que estavam prestes a começar a fazer.

Eu deitado no tapete do quarto escuro e colorido, ele de pé na minha frente e tirando a própria calça, ficando só de cueca e com aquele volume de quem estava animado. Não me senti nervoso pelo que viria a seguir, porque confiei completamente no tato do meu mestre de jogo. Ele deitou por cima de mim outra vez e veio me abraçando, retornando à necessidade astronômica de manter os lábios interligados. Naquele amasso apertado e intenso, senti pela primeira vez a fome masculina proveniente da vontade do Alessandro. Com as coxas imóveis, o quadril pressionou minha pélvis e a ferramenta do skatista friccionou nervosa contra a perna, me deixando excitado em questão de segundos, começando em seguida a lutar contra minha própria ereção. Dois homens a ponto de bala, ambos se tocando e descobrindo pela primeira vez. O primeiro contato entre dois representantes de civilizações distintas, ainda que da mesma raça humana. Eu era o moleque saindo do ensino médio, ele era o futuro noivo exemplar da Milena, ambos se atracando no mesmo chão do quarto e trocando beijos tão calorosos que pareciam sóis queimando e explodindo nos céus. Até que, inflamado pelo desejo de bebê-lo, consumi-lo, tomei força e coloquei Sandro deitado no tapete, virando por cima dele. Agora foi minha vez de tirar a roupa e descer o rosto para beijá-lo, segurando as duas mãos com os dedos entrelaçados e a cabeça dele no meio. Sentei exatamente em cima da virilha, então senti a ereção como se fosse um foguete bem estruturado para levantar vôo e deixar todo o resto do solo para trás, queimando combustível até penetrar na estratosfera do meu corpo. Entre beijos e trocas de carícias, nós ficamos tão entretidos que não tivemos tempo e espaço para preencher o vácuo com algo mais significativo do que a chegada em outro mundo. Ele queria e seria o primeiro a me explorar, a fincar a bandeira de exploração no meu terreno inóspito, bem como o próprio sabia que seria, uma vez que contei a ele das zoações dos infelizes amigos terráqueos. A metáfora dá várias possibilidades!

- Eu vou te encontrar, Ryan! - ele disse.

Senti que usou as mãos para ajeitar alguma coisa abaixo de nós e essa espera recheada de afago me deixou um pouco ansioso, mas no sentido de desejar mais contato. Ele abaixou minha cabeça ao seu rosto e falou baixinho no ouvido, mantendo sempre o tom de voz doce e convincente.

- Preciso que cê confie em mim.

Eu ouvi o pedido com a cara nas cerejas tatuadas no peitoral, ouvindo a respiração semi ofegante do skatista.

- Mais? Eu já não perguntei onde estava este cientista antes!?

Ele era o pirata espacial. Então a base de controle concedeu permissão para que o Major Alessandro decolasse com sua nave, devidamente protegida pelo encapamento necessário para cruzar a radioatividade das altas camadas da minha atmosfera. Sandro posicionou a peça encapada bem na porta traseira e deu a primeira pincelada com vontade, entrando em contato com meus virgens anéis - com o perdão do trocadilho. Sem mais metáforas, eu senti a potência da vara de um molecote adulto quando ela atravessou pelas pregas e me lembrou da virgindade. Prendi as mãos nos ombros dele e, abaixado em seus ouvidos e de cara no cangote, gemi fácil feito um felino acuado.

- Hmmm!

- Tá doendo?

Deslizou a mãos pelas minhas costas, chegou nas nádegas e pediu mais espaço, preocupado com a possibilidade de estar me machucando.

- Não, é que é melhor do que imaginei!

Ele riu e mordeu meu lábio inferior, conduzindo meu quadril com a convicção de que não me causaria dor, apenas o delicioso prazer de ser penetrado e desvirginado sem qualquer malícia a mais que fosse necessária ao clímax da intimidade entre nós. Era a colisão física entre duas unidades, que começavam a se conectar através do interior, ele entrando em mim e dando início ao alargamento primário e inicial. O suor também foi escorrendo, mais por conta do esforço do momento do que por calor em si, porque o ar ligado manteve o clima bem frio. Ele ofegando em meus ouvidos e eu arfando na orelha dele, vira e mexe nos beijando e nos entregando ainda mais ao outro.

- Relaxa que eu quero que cê lembre disso por um bom tempo!

- Eu não vou conseguir esquecer tão cedo, Sandro! - fui sincero.

Ele então usou as mãos para prender minha cintura e eu fiz o mesmo em seus ombros. Devagar, foi me sentando e explorando aos poucos o novo território onde começara a aterrissar, finalmente preparado para nos conduzir às alturas necessárias e planejadas. Atrás das nádegas, senti aquela tora entrando sem nem precisar de vê-la, ciente de que era o instrumento ideal para que fizéssemos todo o amor que pretendemos ali. O Alessandro então tornou a me abaixar a si e voltamos a falar enquanto o ritmo foi sendo lentamente estabelecido.

- Como tá?

Ele se preocupou de verdade, aí veio com as mãos até meus mamilos e apertou meus seios com as mesmas palmas enormes que roletavam a alavanca do fliperama. Agora eu era seu jogo, tocado por si e manuseado sem estar digitalizado em pixels. Era o homem ao seu comando, no alcance daqueles membros tão bem feitos e adaptados ao tato, tomados por milhões de células com zilhões de capacidades de manuseio.

- Tá gostoso! - menti.

Não que não estivesse, mas também estava sentindo uma queimação fora do normal, proveniente do talo grosso me ocupando o eixo de equilíbrio e preenchendo meu interior, mantendo o elástico do anel anal bem forçado e esticado, à vontade para mascar seus instrumentos de exploração do amor extraterreno. Pelo visto não era um pau tão grande, considerando que logo senti os ovos dele encostados na porta de entrada, ou seja, não custei muito a estar completamente sentado e bem aconchegado por todo o corpo do skatista.

- SSSSS Tô todo dentro de você, Ryan! Tá sentindo isso?

Pulsou e entrou em contato extremo comigo, engrossando lá dentro e me alargando ao máximo de sua vontade. A queimação virou um atrito delicioso de prazer, que me deixou todo solto e mole sobre o ventre do Sandrinho, totalmente aberto ao que ele quisesse e precisasse. O suor escorreu, nossas mãos se entrelaçaram, dedos com dedos, e abaixei pra beijá-lo. Nesse impulso, fui com o corpo e dei uma rebolada de baixo à cima, próximo do púbis dele, levando nosso sistema único num solavanco bem intenso que me fez senti-lo completamente, escorregando para dentro e para fora repetidas vezes, insistindo em me cutucar com vontade e de maneira instigante, muito gostosa.

- SSSSS!

Depois voltou a alisar meus mamilos e se inclinou para mordiscá-los enquanto era cavalgado pela minha cintura submissa, comandada por uma mão na lateral. A mesma mão de jogador, que sabe como segurar o controle, comigo não foi diferente. O Sandrinho só parou de mexer quando começou a me arrancar gemidos sincero e prolongados, de baixo volume, tão felinos quanto as arfadas dele por entre os lábios em forma de bico, tentando não chamar muita atenção.

- Hmmmm! Delícia!

Ele então não se aguentou e subiu de vez, voltando a colidir nossas línguas numa pegação safada e com muito contato físico. Ao mesmo tempo que permanecemos conectados sexualmente, os beijos e abraços foram rolando, sem parar um segundo de quicar com as nádegas coladas à virilha do skatista, que começou a gemer dentro do beijo, justamente nas minhas descidas e repuxadas internas. Eu senti arder na hora de tirar e por isso contraí involuntariamente, algo que acabou por intensificar nosso contato.

- Assim cê vai acabar comigo! - avisou.

E olhou pra mim com aqueles olhos sinceros enquanto me viu subir e descer, ficando de boca aberta com o prazer que recebeu do meu aperto. Aquela era a minha virgindade em ação, transformando amor em paixão e incendiando de vez toda a nossa aproximação até então. Quando ele finalmente encaixou com tudo em meu interior, foi como se um botão universal fosse acionado dentro de mim, tendo encontrado aquele ponto fundamental da origem do prazer.

- Ahnnnn!

Tornou a esfregar meus mamilos e pelo visto também sentiu que bateu no fundo, porque as mãos ficaram ásperas e estarrecidas, hesitante pelos excesso de hormônios sendo produzidos em coito. O cacete ficou ainda mais espesso e o meu aperto interno cresceu, dando a certeza de que as coisas estavam tomando proporções bem mais envolventes e calorosas. Os dedos grossos começaram a brincar e massagear meus peitos ao mesmo tempo, me deixando completamente aberto sobre aquele homem. Ele me tinha do jeito que quisesse, bastou que pedisse. E nem precisou, só fui obedecendo, porque naquele ritmo tudo seria possível. À cada estocada inteira, certeira naquele ponto e bem colocada toda dentro de mim, a visão só faltou escurecer e me derrubar de prazer elástico, sendo alargado e contraído de dentro pra fora, feito uma estrela expelindo sua massa, só que em escalas de tesão adolescente. Eu senti que estávamos muito perto de desmaiar de tanto prazer sendo liberado sob a pele, então travei as coxas ao redor da minha primeira paixão e tomei a decisão: estava na hora de realmente ficar sério e deixá-lo marcado, da mesma forma como ele fizera comigo.

Sentado sobre o colo do Alessandro e de frente pra ele, contraí as pregas e rebolei com tudo, FINCANDO as coxas bem conectadas ao tronco dele. O safado sentiu que a minha necessidade estava exigindo mais de si e enfiou os dedos pelas minhas coxas, de tão excitado e ouriçado que ficou. Senti seus pelos arrepiando e um friozinho delicioso me subiu pela espinha, ao mesmo tempo em que o solavanco nos fez engatar ainda mais um no outro, como num verdadeiro sistema binário e altamente sexual. Quis ser possuído pelo adulto que ele era, da mesma forma que eu mesmo estava prestes a deixar toda a adolescência de lado e me tornar um homem feito muito em breve, ainda que nós dois fôssemos dois moleques diferentes, cada um de um jeito e à própria maneira, poucos anos de diferença. Ele virou meu rosto no seu e começou a investir o quadril me olhando nos olhos, sem nem piscar, apenas ofegando e soprando o ar quente em meus rosto, tal qual um gêiser expelindo vapor num planeta em formação. Nosso encontro consonantal e intergaláctico estava perto do ápice, então preferiu fazer aquilo olhando através das minhas íris, no fundo da minha alma de astronauta.

- SSSS! Isso, Sandro! Hmmmm!

Eu apertei seus ombros e vim descendo as mãos pelo tórax, suingando todo o corpo de um lado ao outro para sentir aquela vara corpulenta em meu interior, caindo, subindo, deslizando e atritando com tudo. Ele fez bico de tão deleitoso se sentiu, ainda esticou os dedos dos pés para tentar controlar parte do mar de sensações maravilhosas. Só que eu queria mais, muito mais. Abaixei, chupei as cerejas tatuadas no peitoral suado e fui lambendo até o queixo. Senti o gosto da barba, do rosto, do suor, de tudo que aquele homem poderia produzir. Ele me prendeu a si, apertou minhas nádegas e entendeu que tinha que explorar além da conta, porque era o que eu estava esperando. Desceu-me com mais pressão aplicada ao cóccix e não teve como ir mais fundo. A química e a biologia estavam todas presentes, até que olhei em seus olhos e implorei pela física.

- Faz amor comigo, Sandro!

Ele soube que aquele era um pedido para ser feito da melhor maneira possível. E mesmo na paixão, o fogo do sexo só enaltece o quão forte é o sentimento. Eu queria me abrir todo para que ele entrasse completamente em mim, se fosse o caso e caso o fosse.. possível. Queria o fogo, a colisão, o choque e a magnitude do skatista moldando meu físico, minha anatomia, com bastante atividade tectônica para abalar as estruturas celestes. Nosso encontro entrou em erupção e simbolizou o embate de todas as áreas da ciência, parando para pensar. E até nisso, se você pensa, você existe! Ele mordeu o lábio, colocou um olhar de safado que eu tanto sabia que existia ali e me mostrou como estava preparado para me dar o que quisesse, preferindo até um outro linguajar para mostrar como até a informalidade era importante para construir todo o contexto explosivo.

- Então se prepara, moleque! Porque não é só em jogo que eu boto pra foder!

Adolescência e rebeldia andam juntas. Calças rasgadas, cigarros, skate, irresponsabilidades e sexo, por que não? Sexo é VIDA, é PERMISSÃO, LINGUAGUEM e ENERGIA! Demos um beijo estalado e ele me virou, posicionando meu corpo de quatro no vazio inóspito do quarto interdimensional, um portal ao nosso reduto de amor e sexo. Agora estava prestes a mostrar o lado masculino vicioso, embalado por uma vontade de meter, ou seja, um fogo meteórico e impávido envolvendo sua cintura criadora de outros mundos. Eu, por minha vez, empinei bem o lombo e me mostrei à forma como quis ser visto: o pupilo atencioso e pronto para ir ao infinito e além! Preparou o terreno de pouso, avaliou a exploração que fez até ali e me possuiu por trás, tendo total acesso às áreas antes inalcançáveis. Penetrou devagar na minha zona de vôo e foi escorregando para dentro feito uma broca embrazada no 220v. Foi quando ficou arrepiado outra vez e quase teve que parar, não tivesse emendado logo o ritmo gostoso que nos jogou numa dança espacial deliciosa.

- SSssss! Que delícia, Ryan!

Deu-me uma mexida nas nádegas, ficou certinho na posição encaixado em mim e voltou ao tira e bota marginal e ao mesmo tempo passional, misturando dois sistemas solares distintos em apenas um. Aquele foi como o alinhamento de planetas numa mesma órbita, eu girando em torno do mundo dele e ele visitando minhas fronteiras abertas pelo tempo.

- Não para, Sandro! Orhhh! sssss!

Ele com certeza não pararia. Foi aumentando a velocidade e caindo por cima de mim, me deixando sentir todo o peso do próprio corpo másculo e abafado. As cerejas me cobriram assim como aquele físico e o cheiro característico do suor irresistível, até que o espaço outra vez foi ficando curto e se tornando novamente uma questão relativa, que nem o quando e o onde. Debruçou-se sobre mim e me fez cair ao tapete, dominando meu corpo por cima e dobrando as pernas nas minhas, me deixando sentir o excesso de incitantes pelos roçando em partes traseiras.

- Hmmmm! Isso! Sssss!

As estocadas e o atrito, assim como a queimação anal, se transformaram em instigantes estocadas mais abruptas, do safado dando trancos mesmo contra meu corpo ao chão. A dormência interna cresceu e achei que fosse desfalecer de tanto prazer, totalmente amortecido pelo tato interior do Sandrinho em mim, me massageando de dentro pra fora e extraindo fogo da minha carne, dos meus músculos. Ele segurou meu quadril ao alto, numa tentativa quase falha de manter a conduta, mas também não se aguentou. Os ovos enormes chegaram a subir dentro do saco, repuxando com potência para realizar o trabalho necessário de expelir a quantidade de leite que começou a colocar para fora. Esticou todo o corpo sobre o meu e se entregou, engatando no fundo pela última vez.

- SSSSS! ARHHH!

Apertou-me os ombros bem forte, como se fossem garras me prendendo, e deslizou ao pescoço, que também pressionou com o controle de apenas uma das mãos. Voltou a morder a nuca, descendo minhas costas suadas e escorregadias de tanto esforço.

- Hmmmmmm! - também me entreguei ao prazer.

Ele gozou ao ponto de encher a camisinha, um verdadeiro pulsar expelindo jatos de plasma a esmo no universo de mim, não fosse pela contenção preparada no começo. Eu mesmo tive a visão escurecida e decidi ficar bem quietinho no tapete do quarto, apenas admirando o brilho das estrelas deslizando pelas paredes e o corpo do meu amante escorregando por cima de mim, ambos respirando ainda ofegantes e ele me beijando, sentindo meu gosto, me mordendo, ficando mole e frágil em meu interior. Alessandro veio ao pé do meu cabelo e começou a dar mordidas, me trazendo de volta à vida. Senti minha ereção também amolecida e constatei que estava todo gozado por causa daquela massagem interior, promovida pela exploração proporcionada pelo meu primeiro amor. Literalmente muito mexido e todo morno, praticamente visitado pelo primeiro contato com o representante de uma civilização externa. A tribo dos homens e do mundo deles, onde as regras, linguagem e fatos sociais eram diferentes do resto.

Ele esperou um pouco e, pelado, deitou-se ao meu lado, ainda no tapete, por cima do próprio antebraço. Eu o olhei e sorri, sendo correspondido pelos dedos entrelaçados aos meus e um riso de pouco brilho, por conta da baixa luminosidade do quarto. Ninguém disse nada, ninguém precisou falar alguma coisa. Soube bem o significado daquela primeira vez e entendi que não poderia cobrar absolutamente nada dele. Só por ter realizado uma das minhas vontades, já estava bastante feliz, apesar dos preços envolvendo distância que estavam relacionados ao pouco tempo dali em diante. O Sandro virou para o meu lado e me cobriu com o braço e a coxa, nos posicionando de conchinha e respirando quente por trás de minha orelha. Devagar, nossos ritmos de inspirar a expirar foram entrando em comunhão, num acordo único da fisiologia, como se o mesmo ar fosse responsável por preencher e esvaziar os pulmões um do outro, sem desperdício.

- Me desculpa se tiver doendo, Ryan.

Deu-me um beijo demorado no cangote, dobrou-se por cima de mim e me protegeu de qualquer meteorito ao longo de nossa viagem e descoberta espacial, ainda deitados naquele tapete gelado e brilhante à luz negra.

- Eu não queria te mach-

- Eu te amo, Alessandro. - eu o cortei.

Minha intenção não foi ruim, apenas deixá-lo ciente de que, em caso de dúvidas, alguém estava consigo sempre na mente e no coração. Apaixonado, amando, o que quer que fosse. Ele apertou minha cintura e me puxou mais pra dentro de si, como se quisesse me interiorizar.

- Ama o quanto? - perguntou. - Cê sabe, Ryan..

- Eu sei, eu sei. Você vai noivar, vai se mudar.. eu sei de tudo isso.

Descansou o rosto em meu ombro e ficamos nos olhando de rabo de olho, dispondo de uma sinceridade fora do comum, deliciosamente compartilhada após o sexo. Eu suspirei fundo e tentei me manter contente e focado.

- Eu te amo muito, Alessandro. Mas tenho que entender tudo isso e, pra ser sincero, a Milena parece ser gente boa.

Ele não parou de escutar e revezar beijos em meus pescoço, me deixando arrepiado e cada vez mais entregue ao seu comando, seu tato e posse. Sandro era o futuro noivão e eu o amante temporário, estando em seu colo naquele momento, rodeado pelas coxas expostas e tomado em seu corpo nu, ainda se recuperando da nossa primeira vez.

- Ela é ótima, Ryan. Só não é você!

Aquela frase abriu um buraco negro em meu cérebro e também no peito. Eu respirei fundo e o olhei, mas ele me deu um beijo desesperado, como de quem precisava botar pra fora. A pressa, a velocidade, tudo isso tornou a despedida única. Senti que ia chorar, mas a pressão me impediu e só tentei não perder o foco do instante prestes a se desfazer.

- A vida é engraçada, né?! - falou ao me olhar.

Concordei e ele prosseguiu.

- Eu só quero que você saiba que eu vou aparecer sempre por aqui, principalmente pra te visitar e a gente jogar alguma coisa.

Eu ri e senti as mãos apertando minha cintura, como que num impulso físico de me sentir em total contato consigo, me sarrando de lado e entrando outra vez em plena animação sexual.

- Eu vou te esperar sempre que você vier, Alessandro! É só me avisar! - jurei.

Ele colocou a mão de novo na própria vara e tornou e esfregá-la em mim.

- Queria poder nunca sair desse quarto, mano! - admitiu.

- Então é melhor não perder muito tempo.

Num último espasmo do nosso laço dentro daquele momento, não pensei muito e virei na direção dele, jogando a perna para o outro lado do corpo e me posicionando por cima. A gente queria deixar registrado sem as limitações físicas e técnicas, então ignorei que não tinha outra camisinha e senti a cabeça da ferramenta atravessando minhas pregas ainda inchadas e ardentes pelo primeiro e falso último serviço de minutos atrás. Ele me beijou e não se preocupou com nada, deixou escorregar pra dentro e agora me sentiu com a queimação original da carne, do universo interior. Sandro que entrou, eu que tornei a ver estrelas, num inédito modelo de agasalho físico e encontro sexual. Foi muito única aquela sensação, assim como o abraço preso dele me mantendo totalmente conectado a si, sem qualquer espaço entre nós. A pressa do tempo, a necessidade da ausência de distância, tudo isso contribuiu para a nossa despedida mais íntima de todas. Não teve muito tempo, mas nem por isso foi menos astronômica: ele pôs a boca no meu ouvido e, bem baixinho, gemendo feito um homem carente e já cheio de saudades do que estava aproveitando, gemeu entregue ao meu aperto anal. O anel ao redor de um planeta, aquele símbolo de prazer e sexo. Eu contraí e senti os jatos de plasma agora indo no fundo do ser, expelidos no escuro absoluto do meu espaço interno e também sideral. A sensação de fogo LAMBENDO o lombo me dominou, eu senti um suor sofrido ser expulso pelas células da pele e fui definitivamente consumado por tantas chamas e labaredas se alastrando pelo físico, com o resultado guardado.

- Orhhh! Ssssss!

Ele esticou as pernas e se dobrou novamente a mim, permitindo que os espasmos tomassem conta do restante do contexto e o armazenamento fosse concluído da melhor maneira orgânica possível, sem parar de me ver sentando e também investir com o quadril contra minhas nádegas.

- Hmmmmm! Fffff!

Deitado sobre si, me dobrei e nos beijamos ternamente durante alguns minutos, sem dizer nada, apenas nos olhando e cada um pensando bastante coisa, eu ainda mexendo o quadril devagar para tirar dele o último esforço marcial. Ele jogado ao chão, os braços abertos pra cima e as axilas me namorando, pedindo por mais algum afeto temporário, antes do fim de todas as coisas como as conhecíamos. Poderíamos nunca abandonar aquele cômodo, porém isso seria não viver a realidade da continuidade do tempo. Caí pro lado, ele voltou a me abraçar e ficamos naquele silêncio inóspito, mas recheado de sensações, sentimentos e calores internos. Frio por fora, quente por dentro. Dedos entrelaçados, corações batendo juntos. Mas o tempo.. ah, o tempo! Quase cochilamos lado a lado no tapete do quarto, tomado pelo desejo viciante e pecaminoso de fazer, de forma egoísta, o temporário durar para sempre, ou vice-versa.

Eu e Alessandro permanecemos de chamego até quase 4 horas da manhã, que foi quando meu celular começou a tocar e rompeu completamente com o transe no qual estávamos inseridos. Minha mãe estava ligando e eu não tive como não atendê-la, uma vez que tava preocupada pela hora e com total razão. Ela gritou bem nervosa e eu a tranquilizei, dizendo que já estava chegando e que tinha uma surpresa maravilhosa para ela, que era a grana que ganhamos no torneio da Feira de Jogos. Enquanto nos falávamos, Sandro não parou de me beijar e me arrumar, tendo a certeza de que eu estava pronto para retornar para casa são e salvo. Dentro de mim, sua amostra orgânica de perpetuação da espécie e diversificação genética, resultado do nosso envolvimento bio-quimio-físico, moldado ao testemunho de vários corpos celestes e outras estrelas explodindo no longínquo céu noturno. A gente trocou uns carinhos, ele me vestiu com a própria jaqueta e me acompanhou até o portão. Acendeu um cigarro e fomos andando sozinhos pela rua solitária e banhada apenas pela lua, sem dizer absolutamente nada, apenas guiados pelos barulhos dos passos. Aquele era o nosso último passeio admirando tantas coisas em comum, ele deixando fumaça pelo caminho e eu o levando um pouco dentro de mim, literalmente. Quando chegamos à esquina da onde eu morava, fora dos olhos da minha mãe, Alessandro me deu o último beijo terno e, em seguida, me abraçou. Eu não chorei, só aproveitei o presente ao máximo que ele se alongou, antes que se tornasse passado e me deixasse triste no futuro. Mas, como eu disse, no inóspito, fora da Terra, o tempo e a distância se provam relativos. Afinal de contas, o que é a dobra espacial, não é verdade? Toda vez que eu olhasse para o céu noturno, lembraria do Alessandro me observando com aqueles olhos brilhantes e o sorriso metálico dos aparelhos nos dentes. Ele me deu um beijo na testa, entregou-me outra vez o troféu e não fez questão da jaqueta, que ficou em meus ombros e com o cheiro todo dele.

- Pra não se esquecer de mim! - falou.

- Você só pode estar brincando!

Da esquina, ele me viu caminhando até o portão, de onde observei minha mãe sentada à varanda e com uma cara de muito aflita nos olhos. Ela começaria a dar um esporro logo que entrei pelo quintal, mas estendi a mão e só me preocupei em mostrar a grana alta que havíamos conseguido. Não entendeu de cara, continuou bastante nervosa e eu só fiz piorar a situação quando, fora dos olhos da minha paixão de fliperama, desabei em lágrimas pelo que deixei lá atrás, na rua. Minha mãe não entendeu, mas, pra ser sincero, as mães não precisam de entender, elas conseguem transformar tudo em mero detalhe, que nem a escala astronômica faz, talvez por isso a natureza seja uma mãe por si só. Ela me abraçou, colou o coração em mim e fez parecer que qualquer problema seria passageiro. Tudo em silêncio, talvez ciente de que, dentro do meu peito, aquelas batidas evidenciassem que a vida de um adolescente homossexual pode ser carregada de pesos, embora ninguém ao redor perceba. Optei por deixar o tempo passar e focar nas coisas boas a partir dali. No fim das contas, a minha certeza foi de que, pelo menos no ano seguinte, estaria outra vez ao lado do Alessandro, nem que fosse para competirmos na próxima Feira de Jogos para a qual eu já estava convidado. Além disso, ele mesmo tratou de aparecer sempre que possível, uma vez que ainda não havia realizado a mudança do fliperama para a nova casa. Eu, na minha atual condição de apaixonado pelo skatista, poderia terminar o relato por aqui e dizer que, para o amor, assim como para a astronomia, o passado, o presente e o futuro se confundem invariavelmente. Quando vemos uma galáxia hoje em dia, por exemplo, ela está a tantos milhões de anos-luz de distância, ou seja, a imagem que captamos dela é uma imagem do passado e que usamos para ilustrar o presente. Talvez meu contato com o Alessandro fosse a mesma coisa, bem além do tempo. E, pensando em tudo como aconteceu, eu opto por terminar dizendo que a gente, DE FATO, voltou a se encontrar. E, nesse dia, o corpo dele tinha uma nova marca: um planeta e algumas estrelas tatuadas em cores escuras do outro lado do peitoral, fazendo companhia às cerejas pixeladas. Sorri e mostrei então minha panturrilha, onde tatuei um cometa passando contido por entre algumas constelações. Bem como ele definiu anos atrás: meio tímido e escapando pelos cantos; aparecendo vez ou outra, mas nunca passando despercebido.

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-Foto de capa: http://goo.gl/bUJvJ3

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Queria postar a parte 2 de Academia de Pupilos, mas a CDC não aceitou o texto.

Mudei o título 3 vezes, editei e continuam dizendo que eu já publiquei o mesmo anteriormente.

Sendo assim, deixo aqui o link pra quem quiser saber como termina a história da Academia de Pupilos.

Leiam aqui: http://goo.gl/VD1CGh

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Comentários

22/06/2018 00:59:28
esse conto é um bbzão pra mim e eu sou apaixonado por ele até hoje. é uma honra poder compartilhá-lo com vocês, porque foi ele quem abriu minha ideia de CEREJA e, assim que eu o escrevi, no ano passado, pensei em não publicar aqui... mas acabei publicando! é bom poder apreciá-lo com todos vocês! <3
03/06/2018 15:32:19
Ainda fico incrédulo de me ver apaixonado a cada leitura, melhor, como fico todo melado ao final de cada uma... Seria muito pedir um livro físico seu com todas essas maravilhas reunidas? Com tida certeza ajudaria a divulgar, comprando o meu exemplar e presenteando amigos com o mesmo!
27/05/2018 14:53:59
Você poderia realizar meu sonho e fazer uma continuação com um final dos dois, para os dois e somente os dois, né? ALÉM DE FAZER UMA VERSÃO DESSE CAPÍTULO PELA VISÃO DO ALESSANDRO! Por favor, carinha, nunca te pedi nada?!! Rsrs
26/05/2018 21:01:28
Ótimo conto, o melhor que eu vi até hoje
26/05/2018 02:49:42
Caralho! O que foi isso? Não sei como dizer o quanto foi fantástico ler isso! Putz... Cada detalhe, cada frase, cada sentimento, cada desfecho e a forma que tudo foi se conectando... Foi fodasticamente incrível! Eu preciso ler, reler e imaginar tudo isso mais um milhão de vezes! Você se superou, cara! Um dez não traduz a nota que você merece!
21/05/2018 13:48:02
30 min de leitura e não me decepcionei. Você nunca decepciona para falar a verdade,um dos melhores da Cdc
20/05/2018 11:43:49
Que conto! Adorei cada detalhe. Seus contos mais longos sao os que mais envolvem no erotismo e no prazer. Sobre o academia de pupilos, eu li a parte 2 la no whattpawhattpad, mas pra publicar aqui voce pode fazer assim: abre um texto novo com a título um pouco diferente do que voce estava tentando, no corpo do texto cola só alguma frase de teste repetida varias vezes ate dar o tamanho que o site pede e publica. Depois de publicado, vai em editar texto, apaga essa frase de teste e cola o texto que voce realmente quer, aí é só salvar a ediçao. Eu ja fiz isso algumas vezes e deu certo.
20/05/2018 10:44:41
André, eu já comentei com você... mas, mais uma vez eu tenho que dizer. Seus contos são excepcionais! Sempre me pergunto o que é que você irá trazer no próximo conto, e sempre sou surpreendido com o que eu gosto de chamar obra prima. Eu espero que você continue a escrever para nós, porque eu gosto muito e quero continuar a ler as tuas obras! Parabéns! Aguardando ansioso pelo próximo!
20/05/2018 00:53:15
Nossa esse conto ficou muito shoow adorei......
19/05/2018 22:38:58
curti

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