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Esquerda

- CIMA -

Uma vez, quando eu era bem pequeno, sonhei com um campo aberto e vazio, gramado e do tipo que só dava pra ver o céu negro enorme sobre minha própria cabeça. Eu podia me lembrar de ter dormido zangado com meu pai, porque ele nunca me deixou brincar ou fazer amigos na rua. Não havia lua, só o brilho forte das estrelas lá em cima. Fora isso, um frio fora do comum me arrepiando a pele. Eu estava sozinho. Ou achei que estivesse, porque escutei um barulho e me virei ao redor, aí vi um garoto do meu tamanho correndo em minha direção. Eu não consegui detalhar seu rosto, porque ele passou rápido por mim e estava um pouco escuro. Ainda me puxou pelo braço num impulso. Mas pude escutar a voz quase gritada.

- Vamos, vamos! Vamos correr, estamos livres!

Deixei-me ser levado e só tive tempo de, um pouco atrás dele, observar seu curto cabelo negro, escuro como a noite. Comentei com meu pai depois que acordei e disse que era legal estar sonhando, porque ao menos eu teria um amigo. Ele ficou um pouco assustado e, por incrível que pareça, se sentiu menos rígido no sentido de me deixar brincar na rua com as outras crianças a partir daquele dia. Eu não entendi na época, mas vi aquele sonho como algo bom, no fim das contas. Foi por causa dele que minha criação foi melhor do que poderia não ter sido, não sendo eu uma pessoa sozinha de amigos.

- ESQUERDA -

Eu sempre fui muito parecido com a minha mãe, sempre fui muito pé quente no sentido comportamental e prático da convivência humana. Quero dizer, sou aquele tipo de pessoa que dá bom dia pra todo mundo, não importa quem. Eu tô sempre querendo ajudar, ser útil, justamente porque acredito que falta bastante disso no mundo. Meu pai sempre disse que eu era parecido com ela, talvez por reconhecer que ele, em si, era mais tranquilão, do tipo que não incomoda muito e prefere não ser incomodado, até calado. Na realidade, eu não cheguei a conhecê-la pra saber, mas acredito que ela era mesmo como todos que a conheceram na favela diziam. Acho que foi esse sangue corrente nas veias e os hormônios da puberdade que, somados, me fizeram entrar no meio da galera do fundão na sala de aula. Ensino médio de colégio federal, já que meu coroa sempre investiu na minha educação e na do meu irmão mais velho. Todo o tipo de gente ao redor, intervalo entre aulas e minha falta de vontade de ficar sentado no meu canto latejando na pele. Um calor por causa do verão, ar condicionado pifado e a conversa rolando solta, uma falação que só. Primeiro ano, pra ser mais específico, parte da turma era proveniente do ensino fundamental, parte concursada, como eu, então o clima ainda era de entrosamento e papo descontraído. Eu tinha sei lá, uns 16, no máximo 17 anos. Levantei e fui em direção à muvuca de cadeiras viradas na mesma direção.

- O que vocês tão aprontando?

Numa das carteiras, dois moleques, um mulato e outro branquelo, ambos com os cotovelos apoiados e medindo força. Eu lembro bem que, mesmo naquela época, já colecionava alguns desejos distintos, tanto por amigas quanto por amigos, mas detalhes meus que fiz questão de nunca comentar com ninguém. Minha energia até então era gasta somente nessas situações de bagunça, algazarra e tudo mais que fosse relacionado à adolescência quase rebelde. Até então.

- Tá cego, porra!? Queda de braço, Dudu!

A propósito, eu me chamo Eduardo, o tal Dudu ou até Edu. Na época, tinha estatura mediada, corpo entre o magro e o usual, cabelo curto e poucos pelos nas pernas.

- Porra, como é que tu organiza uma treta dessa e não me chama? Rala, rala! Sou eu!

Fui ganhando espaço entre as mesas e os moleques ao redor zoaram. O moreno gato aproveitou esse momento e amassou legal a mão do branquinho e loirinho na carteira, pegando-o desprevenido.

- Ah, qual foi! - o perdedor tentou argumentar.

- Rodou, playboy! Levanta aí, namoral!

E ergueu os braços em seguida pra comemorar, exibindo as axilas peludas e um sorrisão estampado no rosto. Um homem preso no corpo que legitima a transição entre moleque e adulto, macho quase feito. Eu nem precisei de imaginar muito pra saber que aquele ali era o típico ego masculino se manifestando, medindo força, que é um dos parâmetros que os homens gostam de colocar à risca como motivo de orgulho e diferencial entre os outros. Queda de braço, um teste entre egos masculinos pra se exibir aos outros caras ao redor. Quase um aviso de "eu sou o alfa aqui!", na visão propriamente dita. E eu era muito homem, mesmo ciente de como o jogo funcionava, então ia jogar. E seria contra o morenão vencedor.

- Sou eu, rala!

O branquelo saiu e me deu lugar. Olhei pra frente e reparei que a blusa do uniforme do meu adversário era diferente, uma versão sem mangas e provavelmente feita sob encomenda, justamente pra tornar possível que aquele maluco todo grande coubesse na roupa. Seus braços largos e os ombros protuberantes de fora, talvez no auge das explosões de hormônios e fase de crescimento. Ele deu um sorriso largo pra me intimidar, só que o sangue quente fervia em mim sempre que era provocado, então sorri ainda mais de volta, pra deixá-lo ciente de com quem estava lidando.

- Tá com sorte hoje, Dudu?

- Eu que sou a sorte, brabo! - respondi.

Ele então removeu o boné da cabeça e pude ver o cabelo curto e bem escuro, que, no fundo da minha mente, fez algo ebulir ainda mais fervente, como se houvesse uma pressão para me recordar de algo bem antigo, só que nenhum pensamento imediato emergiu. Mais do que admirar aquele moleque, eu tinha que batê-lo no desafio. Pra completar ainda mais o ritual, ele enxugou o suor da testa com a mão e se posicionou. Repeti o procedimento, encaixei na dele e nós apertamos juntos, esperando o juiz escalado liberar a partida. O puto do meu rival me olhou de novo e sorriu daquele jeito bem debochado, como se já fosse garantida a vitória, o que me deixou ainda mais eufórico e de pé firme no chão, pronto pra partida iniciar.

- Preparados, competidores?

- Suave! - falei.

- Manda ver!

- Então nas suas marcas..

Cotovelos fincados nas carteiras pouco trêmulas, nosso olhar fixo um contra o outro e o encontro do suor entre as palmas amassadas de ambas as mãos direitas. Era agora!

- VAI!!

A pressão do braço do mulato começou primeiramente dominando a minha resistência, de forma que recuei ao ponto de quase entregar tudo já no primeiro segundo da briga. Mas esse foi o erro do maluco, ele me deixou não perder de cara. Ele me deu uma chance de reagir com o meu sangue pulsando a mil por hora nas veias. Tanto na minha mão quanto na dele, as peles se elevaram por conta dos fluxos sanguíneos agitados. Corpos adolescentes reagindo aos estímulos e hormônios de uma competição assistida por outros adolescentes, era muito orgulho e honra em jogo. O suor desceu pela minha testa, ele rangeu os dentes e a galera ao redor atiçou.

- Vai, Dudu! Vai que é tua! Reage, menó!

- Mata logo, Moreno! Mata logo!!

Eu tomei sustentação com a mesa da carteira e foquei toda a pressão do meu corpo no movimento de braço. Não precisei tecnicamente de ir contra a mão dele até o final, só quis deitá-la, que foi o que fiz num estrondo contra a superfície de madeira lisa da carteira.

- ISSO AÍ, MENÓ! PORRA!

- RALA, MORENO! METE O PÉ!

Ele não acreditou, nem eu. Minha mão amassou o braço do meu rival, que ficou me olhando assustado e levou a outra à cabeça, pra enxugar mais suor. Até que ele riu e aceitou a derrota.

- Sorte de principiante, moleque! Vai ter volta!

O antebraço recheado de veias saltadas. Aí deu uma piscada sacana pra mim e saiu pro resto do grupo, como se fosse ficar pra ver quem seria o responsável por eliminar quem o eliminou. "O ego masculino está sempre ou quase sempre preso a outro homem, outro ego masculino", pensei, mas nada falei. Eu sempre vi as coisas de uma forma um pouco crua, digamos assim. E o Moreno, dando aquela piscada pra mim, talvez tivesse uma noção ou outra sobre a minha visão.

- E aí, quem é o próximo?

Encarei todos ao redor amistosamente e iniciei uma disputa de poucos minutos com mais dois colegas de classe, sendo que o último quase me destruiu. Como sempre, o sangue quente era aquele fator que salvava na hora certa, então continuei invicto.

- Ninguém mais?

Eu tava mesmo me sentindo, não nego. E foi nesse momento que escutei aquela frase pela primeira vez, vindo em direção a mim. Eu nunca havia sentido o que senti até aquele momento.

- Que viado exibido!

Pareceu até que o silêncio contribuiu pra todos reagirem da mesma forma incomum e se olharem, e eu junto, tentando descobrir quem foi que disse aquilo. O sangue quente parou de correr apressado nas veias e isso me deu um tipo de frio fora de época, porque ainda estava suando, porém meio arrepiado, talvez por aquela ser a primeira vez que fui chamado assim. Uma parte da roda de estudantes foi se abrindo e me deu visão de um moleque sentado sozinho perto do final da sala. Cabelo preto, uma barbinha precoce, pele bastante branca e fones no ouvido. Pouca barba crescendo pelas laterais do rosto, como se fosse o começo das costeletas, além do semblante sério. Ele percebeu que todos começaram a olhá-lo e arregalou os olhos.

- Qual foi, moleque? - perguntei.

Removeu um dos fones de uma das orelhas e finalmente me deu ouvidos, encarando o problema sem medo. Essa foi a primeira vez que olhei nos cornos do Téo, um moleque meio emo e que me deixava até um pouco arrepiado pela presença toda séria, centrada e mais caladão até do que meu pai. Se não fosse por isso, talvez nós nunca tivéssemos interagido. Naquele dia ele deixou escapar o pensamento alto.

- Que foi? - perguntou.

- Por que tu não vem aqui e me tira, seu marrento?

Falei cheio de atitude. Mas o Téo não se intimidou por aquilo, realmente levantou e contrariou o que pensei que aconteceria, considerando que ele provavelmente era um nerd que não devia nem saber jogar queda de braço. Veio caminhando e eu fiquei ainda mais arrepiado, mas não deixei ninguém perceber. Sentou-se na cadeira à minha frente e, pra completar ainda mais a cena de desafio, esticou o braço esquerdo, o oposto do usual.

- É uma piada? - perguntei.

A galera ao redor riu, mas me mantive sério e focado. Ele não se abalou, tampouco reagiu.

- Tá fugindo? - revidou.

- Nunca!

Estiquei meu braço esquerdo, mesmo tendo total inexperiência com ele, limpei o suor e encaixei nossas mãos. Até o toque daquele cara foi gelado contra meu sangue quente, evidenciando que já éramos opostos de natureza. Ele ainda fez cara de nojo e eu só consegui rir pra tentar mostrar minha força antes mesmo de começar.

- Preparados, senhores? - o juiz segurou nossas mãos amassadas.

- Bora!

- Sim!

Esperou.

- Apontar..

O último olhar antes do embate. Eu quente de um lado, ele todo na dele e frio, sem muita expressão de dificuldade no rosto, me olhando fixo nos olhos e quase não piscando de tão sério. De uma forma subjetiva, essa foi a primeira vez em que me senti invadido pelo Téo, tão visto e lido por ele que o corpo foi parando de estremecer ante à competição de força e aí o braço travou. Ou eu poderia dizer que congelou?

- VAI!!

O juiz deu a largada e eu demorei demais pra perceber. Tive que olhar duas vezes pra acreditar quando meu rival quase amassou minha mão na carteira. Talvez pela essência frenética do sangue quente, as correntes voltaram a fluir apressadamente e eu meio que retornei a mim e caí pra fora de toda a envolvência e certeza do olhar curioso dele. E ele sério, vencendo meu braço e subestimando minha força adolescente quase com nenhum esforço.

- VAI, DUDU! ACABA COM O NERD!

- FORÇA, MENÓ!

A galera ao redor delirando e eu tentando resistir pra não perder. No último segundo, finalmente senti os poucos músculos sendo lubrificados por muito sangue quente, me dando a força necessária pra fazê-lo durar mais alguns segundos. O Téo deu a única piscada de olhos da partida, quase que em câmera lenta. Abriu e continuou quieto me encarando e suando muito pouco, como se a minha quentura também fosse capaz de deixá-lo menos frio ao ponto de suar. Era briga de energia e temperatura corporal, independente de nossas origens e genéticas.

- VAI, DUDU!

Mas a seriedade dele venceu a disputa. Eu quase travei de novo e o moleque aproveitou pra deitar meu braço. Custei um curto tempo até perceber o que havia acontecido, mas foi só olhar pro Téo e vê-lo sorrindo pra mim que aceitei a derrota por dentro, porém não por fora. Aquele foi o primeiro sorriso dele que presenciei e me marcou pela sutileza e sinceridade. Algo que ele até tentou esconder, porém isso só deixou mais evidente que, de fato, ali estava um belo sorriso de moleque com glória inédita.

- Mas aí é foda, né! Eu não tava usando meu braço de sempre!! - tentei justificar falsamente.

- Ah, para de caô e rala! Mete o pé! - Moreno respondeu da roda.

Os moleques ficaram rindo e foram se organizando pra desbancar o Téo da roda de queda de braço, foi aí que o professor chegou e todos tivemos que dispersar e retornar aos nossos lugares, ou seja, não saberíamos se ele era realmente o mais forte até a próxima competição . Nesse dia, eu passei o resto da aula dando pequenas olhadas na direção do rival que me tirou do jogo, tentando entender o porquê de ter me sentido tão afetado por ele e por seu olhar frio e sério, pra não falar do sorriso sincero. Desde que ele mandou aquele "que viado exibido!", eu soube que nosso laço não seria tão comum e equilibrado quanto poderia, porque aquilo me deixou em alerta sobre a verdade. A verdade de que, brincando ou não, um cara que nunca falou comigo me apontou e expôs na frente dos outros amigos. Ele não falou mentira, por isso fiquei intrigado e curioso em como conseguiu perceber, considerando o fato de que sabia do que estava falando. Do contrário, seria só zoação de ensino médio. Será?

Estudando naquela turma, eu tornei a ter muitos embates seguidos contra o Téo, mas perdi em todas as vezes, justamente por não usar minha força direito, sempre enfrentando ele com o braço esquerdo. O cara era canhoto, ou seja, destro, fazia tudo com a mão esquerda. Por conta dessas sucessivas derrotas, eu passei muito tempo só treinando com os moleques durante os intervalos entre as aulas. O Téo não era de interagir muito com ninguém, vez ou outra que chamavam ele pra desafiá-lo e ele nem sempre ganhava, mostrando que nossa questão estava especificamente em eu não ter a força ideal no braço esquerdo e ele não fazer nada com a mão direita. Mais uma coisa que nos tornava opostos, além do meu sangue quente e do olhar frio dele. Uma vez, logo após derrotá-lo, o Moreno levantou tão orgulhoso que nem fez questão de continuar ali até ser eliminado por alguém, dando a vez ao próximo. Olhou pra mim, piscou daquele jeito insinuativo, e, ao passar do meu lado, falou baixinho.

- Só quis confirmar que não sou tão fraco que nem tu, Dudu!

Não resisti.

- Não pode se esquecer que quem te tirou fui eu! - rebati.

- Quer uma revanche?

A galera se ligou no clima amistoso que pairou entre nós e já foi separando as mesas.

- Ih, aqui ó! Vem, vem! Vem resolver aqui!

Ele sorriu daquele jeito cínico e sentou numa cadeira, me fazendo topar o desafio e sentar na outra. Eu nunca recusaria!

- Preparados?

O juiz mal perguntou e, por conta do raio entre nós e do calor ao redor, o moleque ombrudo já fez pressão pra me derrubar. Esperto, mantive o braço firme e fechei minha mão na dele bem forte, olhando com os olhos em chamas na fuça do mulato. O Téo nos observou atento de longe, eu cheguei a vê-lo rapidamente, mas logo tornei a olhar pro Moreno.

- Tu é pato! - falei.

- UUUH! - o grupo vibrou.

Entrelacei dois ou três dedos entre a mão dele e me preparei para tombá-lo. Até que o instinto falou mais alto no corpo cheio de melanina daquele puto. Talvez só ali eu percebi que ele era quase tão quente como eu, com a palma da mão amassada na minha e toda veiuda, todo corpudo e pronto pra qualquer coisa. O suor descendo pela testa, a visão do cabelo negro. Pra completar, ele "esbarrou sem querer" com a perna na minha por baixo da mesa, sendo que estava de bermuda e os pelos sarraram na minha pele insistentemente. O suor em seu corpo agora passou ao meu e eu fraquejei com aquela safadeza oculta, feita para que ninguém mais percebesse. Aquele era um macho que tinha até namoradinha pelo colégio, ou seja, um pouco mais à frente dos outros, tão à frente que foi capaz de apelar comigo pra ganhar, como se já soubesse o que fazer. O sangue foi traído por excitação e o braço cedeu.

- QUE ISSO, DUDU? PERDEU DE NOVO, MENÓ!

Ninguém acreditou, muito menos eu, mas entendi o porquê. Essa talvez fosse uma das características do sangue quente, uma fraqueza. O sexo, a vontade física do corpo. Eu não quis ficar muito tempo, levantei e me direcionei à porta da sala pra não ficar rebatendo as zoações dos garotos. Antes de sair, passei pelo Téo e ele me olhou do mesmo jeito sério de sempre, mas não disse nada. Esperei por poucos minutos sozinho na porta, até que o Moreno abriu e passou por mim como se não tivesse me visto, esbarrando com o corpo de propósito. Maior que eu, cada vez mais musculoso com o passar do tempo e um futuro candidato a qualquer prova de forças armadas, por isso o investimento em treino, ele me sarrou de propósito, passando com o volume da calça bem na minha coxa e arrastando. Ainda falou sem me olhar.

- Tu que é meu pato, Dudu! É só eu estalar o dedo!

Riu de canto de boca e estalou no meu ouvido. Aí seguiu com aquele andar malandro cheio de fama, do tipo que os ombros balançam de um lado pro outro enquanto ele caminha, subindo com o corpo depois de pisar com o tênis no chão. Seguiu um pouco à frente, parou uma porta depois da nossa sala e aguardou, ainda virado pra mim. Poucos segundos após, saiu uma garota diferente da última que eu vi com ele. Menor em altura, ela o abraçou pelo pescoço com os braços finos e ficou praticamente pendurada. Ele começou a beijá-la e ficou conversando algo bobo de namorico, eu tentando não observar muito. Até que ficou de frente pra menina e conversou beijando a testa dela, que estava na altura de sua boca. Isso o permitiu me olhar enquanto estava ali, atitude que achei muito da safada. Como se não bastassem as provocações, ele não ficou nem um dia solteiro e agora ainda tava me mostrando como funcionava sua rotina, seus esquemas pra suprir vontades e necessidades do corpo elétrico de ensino médio. As forças dos quadris da juventude maliciosa e certeira já me davam sinais.

Não vou negar que me masturbei várias vezes com a imagem do Moreno na mente, ainda mais depois daquelas sarradas que tomei dele e da derrota na queda de braço, que me deixou ainda mais nervoso e aflito pra vencê-lo e retomar meu orgulho, sentir meu ego sendo inflado. Tudo isso somado ao tesão cínico que estava fluindo entre nós, embora eu não soubesse bem como ele me via, já que eram só brincadeiras ocultas até então e ele era considerado o pegador do colégio pelas garotas. Por outro lado, tudo isso me fez refletir ainda mais sobre como ele e Téo foram certeiros no que pensaram a meu respeito, não que importasse tanto. O rumo desses pensamentos e dúvidas foi o responsável por atiçar ainda mais a curiosidade e me fazer tomar uma atitude que modificou tudo, porém a oportunidade só surgiu mesmo no meio de um acaso. Num dia qualquer, bem na hora do intervalo em que todos desceram ao pátio, voltei na sala pra buscar a carteira na mochila e, pra minha surpresa, dei de cara com o Téo sentado sozinho e comendo biscoito. Os fones no ouvido, a cadeira posicionada estrategicamente fora do sol e, mesmo sem o ar funcionando, a temperatura até que fresca demais pro calor que fazia lá fora. Ele não teve como fingir que não me viu entrando, assim como eu também não tive como fazer o mesmo em relação ao moleque. Mais que isso, pareceu o momento ideal pra movimentar a curiosidade e interagir.

- Por que tu tá aqui sozinho? - perguntei.

Ajeitei algo na mochila e fiquei enrolando. Ele tirou um dos fones com aquela cara de sério e me olhou. Só então constatei um cheiro doce de perfume de cereja.

- Quê?

- Por que é que tu tá aqui na sala sozinho? Tá geral lá em baixo.

Ele pensou um pouco.

- Eu não gosto.

Não entendi.

- Não gosta de que?

- De ficar no meio de todo mundo. Prefiro ficar aqui sozinho.

- Tá, mas por que? - insisti.

Fez cara de dúvida.

- Como assim "por que"? Eu só não gosto.

- Eu entendi que você não gosta, mas tudo tem um porquê, tu não sabe disso?

E refletiu alguns segundos, mas se manteve tão imbatível quanto nas quedas de braço comigo.

- Só não gosto. E lá fora também tá muito calor. - disfarçou.

- Ah, então é pelo calor?

- É, pode ser. - concluiu.

- Não, é pelo calor ou não é pelo calor? Pode ser não existe! Se decide, Téo!

Chamei ele pelo nome e o moleque pareceu dar mais seriedade ao papo bobo e quase sem fundamento nenhum que eu tentei prolongar. Por causa de sua seriedade, fui perdendo um pouco o jeito, mas nunca desistiria. Fiquei a uma mesa de distância dele, estiquei meu braço direito, o que sempre estive acostumado a usar e também onde estava minha força, e o encarei rindo.

- Só tem um jeito de resolver isso!

- Tá falando sério? - ele não creu.

- Ué, pareço estar brincando? - respondi.

Aí esticou o braço esquerdo e eu reclamei.

- Não, chega disso! Eu quero a direita, nada de canhotagem!

Relutante, ele esticou a mão que pedi e, todo torto, se apoiou na mesa. Entrelaçamos as duas e nos encaramos, só nós dois e o silêncio absoluto da ausência de qualquer pessoa por ali. Ele daquele jeito frio, quieto e sério, eu todo sorridente, acelerado e quente.

- Quando quiser! - falei. - Mas vamos combinar uma coisa.

Com certeza não esperou por essa, os olhos até cresceram um pouco de nada.

- O que?

- Se eu ganhar, tu vai desembuchar e começar a me explicar esses porquês!

Ri pra tentar dar um tom mais leve à frase, só que nem precisei tanto, o moleque era muito decidido nas horas de duelar comigo.

- Certo! Mas se eu ganhar, você para de me perturbar. - parou e seguiu. - Pra sempre!

Engoli a seco, mas pareceu um trato justo e parecido com a nossa cara: na mesma direção, porém em sentidos diferentes. Rivais de natureza, óbvio que cada um quereria uma coisa diferente do outro.

- Feito!

- Então pode começar! - mandou pra mim.

A pressão dele iniciou forte, mas naquele modo não teria como eu perder. O Moreno me eliminou por apelação, atiçando meu sangue quente, porém de uma forma sexual que desviou meu foco da competição. E o próprio Téo só me vencia com um braço. Naquela modalidade ali e sem truques, eu poderia tirar qualquer um deles. E foi o que fiz fácil, nem senti o fluxo acelerar completamente e deitei o antebraço dele todo na superfície da mesa com calma e tranquilidade, sentindo até a força que o moleque tentou fazer contra mim. Vitória garantida, ele desistiu, mas continuamos assim, de mãos dadas e de cara um pro outro. Dali não passaria mais.

- Por que tu não treina com esse braço? - iniciei.

- Por que você não treina com o outro? - rebateu.

Rivalidade até nisso.

- Nosso trato não foi esse, Téo!

Ele desviou o olhar de mim, mas tornou a encarar depois, meio contrariado pela derrota fácil. Pra ajudá-lo a começar a falar, respondi a pergunta rebatida.

- Nunca treinei com o outro porque eu nunca precisei, eu acho. Sempre fiz tudo com esse aqui.

O fato deu ter respondido e não mais rebatido talvez o tenha deixado diferente em relação ao assunto e à derrota. Foi a partir daí que ele começou a falar um pouco mais.

- E tu?

- Ah.. Meu pai sempre insistiu pra eu aprender a usar o direito, mas eu nunca consegui. Com o esquerdo é muito mais fácil!

- Ué, mas por que ele queria isso?

- Meu pai é muito mandão, Eduardo. As vezes..

Eu fiquei todo bobo com ele me chamando pelo nome, mas em seguida foi diminuindo a voz como se estivesse pensando e repensando bem o que diria, soando bem importante.

- As vezes ele só quer as coisas do jeito dele, isso é bem chato.

- Ele é velho ou novo?

- Não é velho, não. - parou. - Mas por que tanta pergunta?

- É que normalmente são os velhos que são mais conservadores, né? O meu, por exemplo, só sabe cobrar nota boa. Já imaginou se teu pai descobre que tu anda fazendo queda de braço na sala de aula!?

Téo não se aguentou e me deixou testemunhar uma gargalhada gostosa e descontraída, do tipo que ele começou rindo alto, mas aí foi se contendo como se tivesse extrapolado um limite.

- Ele me mataria, pode apostar! É por isso que eu nunca joguei com vocês antes. Meu pai também é chato com essas coisas de educação, bons modos.. Ele diz que essas brincadeiras são coisas de vagabundo e só servem pra desviar!

Estudar em colégio federal significa conhecer muitos tipos diferentes de pessoas, tanto no sentido de classes, como no de diversidade dentro dessas mesmas classes de gentes. Você conhece tantos modelos diferentes de vivência que acaba ficando mais perspicaz em relação a como todos se vêem e o que pensam uns dos outros. Foi assim que percebi que o Téo passou de um mero rival para um colega de classe todo criado e moldado em completa oposição a mim, à minha criação e ao meu formato de pensamento e mentalidade. Eu era o morador de favela do sangue quente, cujo pai trabalhava pelo sustento e o irmão mais velho bicava por aí sem ter estudo, fato que sempre preocupou meu coroa.

- "Cadê o boletim, Eduardo? Já fez a lição? Sai desse computador, vai ficar que nem o teu irmão!"

O Téo já era o filhinho de papai e mamãe que provavelmente teve tudo o que não quis, afinal de contas, os pais provavelmente proveram com aquilo que não tiveram, na intenção de deixá-lo feliz, só não deram tempo e atenção. Até nos laços fraternos precisa de haver amizade, se não a frieza domina. E de repente era por isso que o Téo era todo frio, por não ter amigos com quem conversar.

Eu viajei muito, sentado na mesa durante o intervalo, só então reparei que, enquanto conversávamos, ainda estávamos de mãos dadas pela última queda de braço. Não sei se ele percebeu, mas nenhum de nós quis remover a mão dali, pareceu até que aquele ponto foi onde o equilíbrio entre energias e temperaturas ocorreu, sendo bastante agradável pra mim e pra ele, imagino eu.

- O meu pai também é chato com educação. - tentei parecer normal nos meus pensamentos. - Mas isso deve ser coisa de pai, né?

- Eu espero que sim!

Quando a falta de assunto ameaçou surgir, comecei a falar de outros tipos de jogos e conversamos sobre os digitais, internet e RPGs.

- Em casa é muito difícil eu jogar, só nos finais de semana.

- Sério? - não cri.

- Sim. Durante a semana eu só posso estudar.

- Cara, que loucura! Tu tem que se distrair um pouco, Téo!

- O foda é meu pai..

- JÁ SEI!

A mente ebulindo de ideias, fervendo soluções e cozinhando alternativas imediatas de suprir essas questões pesadas sobre a criação do meu colega de classe. Senti que havia um universo de coisas pra mostrar a ele e que, assim como a queda de braço, com certeza ia deixá-lo mais solto e entretido, sem impedi-lo de ser educado ou qualquer outra neura dessas. Sendo assim, convidei meu rival pra ir numa lan house que havia perto do nosso colégio, mas de cara ele negou, simplesmente por não conseguir tempo livre.

- A gente mata um tempo de aula do sábado! É simples!

- Matar aula?

Pra alguém que só seguia regras, pra ele era difícil fazer essas coisas. Mas ao mesmo tempo, aquele era o moleque participando de queda de braço na sala de aula do colégio, então só bastava a oportunidade. Nós ficamos meia hora conversando abertamente e nos conhecendo, o tempo todo com as mãos tocadas, como se aquela fosse minha recompensa por ter ganho dele no último embate. Só desfizemos aquele nó quando a porta da sala abriu e a primeira pessoa a entrar foi o Moreno, se agarrando com a namoradinha. Mesmo beijando, ele veio de olhos abertos e o jeito cínico de quem viu a gente mega entrosado, mas não disse nada. Essa foi a primeira vez que passei o intervalo na sala de aula, cumprindo o começo do trato mortal que fiz com o Téo de não deixá-lo em paz. Nunca mais.

Como falei, só mesmo na cara da oportunidade que as coisas acabavam acontecendo. Pareceu até coisa armada quando cheguei um pouco atrasado pra aula de sábado, ainda estava subindo a rua quando um taxi parou e meu rival e mais novo amigo saiu de dentro dele, todo perdido, sem me perceber.

- Não adianta mais correr!

Ele virou e me viu, batendo a porta e liberando o motorista após pagá-lo.

- Que bosta, Dudu! O carro do meu pai enguiçou, ele ficou uma fera, eu vim de táxi mesmo!

- É, mas não adianta. Quinze minutos, amigo!

Apontei meu relógio e contei mais de vinte minutos de atraso, o que significava que teríamos de esperar até o próximo tempo pra entrar, ou seja, mais 25 minutos fazendo nada. Ele até tentou argumentar, mas não teve jeito. Tentamos entrar na lan house, que mais parecia um salão de jogos, com fliperama e tudo mais, só que estávamos de uniforme e a dona nos barrou. Pensei um pouco, saímos e voltamos com as blusas vestidas ao contrário, sem mostrar a estampa típica do colégio e outros detalhes comprometedores. A mulher riu da malícia, porém liberou a entrada, mesmo com o Téo sempre hesitando. Foi só sentar na primeira máquina e abrir um milhão de jogos que tudo isso se desfez. Ele ficou tão vislumbrado que perdemos todo o restante das aulas só jogando RPG online na lan house, durante o sábado. E a partir daí, mais uma vez, muita coisa mudou no nosso laço. Meu rival topou até baixar uns jogos no computador de casa, só que jogaria apenas de madrugada, depois que os pais dormissem. Assim, eu também passei a jogar pelo notebook do meu irmão, e ficava até 1 da manhã esperando ele entrar todos os dias pra jogarmos juntos. A rivalidade foi dissolvendo a partir desse momento, quando entramos em cooperação em prol dos objetivos sugeridos pelo jogo. E foi nesse mesmo instante que, por diversas vezes seguidas, eu assumi a função de líder de grupo, enquanto ele preferiu me dar o suporte necessário para liderar, como numa espécie de trabalho em dupla perfeito, no qual ele não venceria sem mim e eu perderia sem ele. Nas semanas de prova foi até difícil, porque a gente tinha que estudar e dormir cedo, mas a necessidade de jogar junto era tamanha que nem sozinhos havia graça.

Numa das vezes em que estávamos no intervalo do colégio, fizemos uma queda de braço pra relembrar os hábitos que nos aproximaram. Eu sempre na direita e ganhando, ele sempre na esquerda e me batendo, além desse vice-versa típico da nossa eterna oposição. Quero dizer, os jogos e a convivência nos fizeram perceber o quanto nos tornamos diferentes resultados de uma mesma coisa. Do mesmo modo que ele era fruto da criação dos pais dele, agora tanto eu quanto ele éramos um produto único do nosso tempo dedicados a ficar juntos, online, fisicamente ou não. O meu rival era o meu melhor amigo, a pessoa com quem mais gostava de estar e com quem mais tinha afinidade. Foi por causa desses pensamentos que tive uma ideia bem louca.

- Eu quero te mostrar um jogo, Téo.

- Que jogo?

Isso no meio de uma queda de braço.

- Ah, sei lá o nome.. tá no notebook do meu irmão!

Eu andava treinando a mão direita pra tentar vencê-lo, mas ainda era complicado ministrar equilíbrio do cotovelo e força do antebraço.

- Então você vai trazer pro colégio, Dudu?

- Não, né! Tu vai ter que ir lá em casa!

Ele perdeu a força do braço e, pela primeira vez na vida, eu venci o Téo usando minha mão menos acostumada a fazer as coisas. Só que percebi que venci apenas porque ele se espantou com o que falei, então não aceitei e sequer quis contabilizar essa vitória no nosso ranking competitivo.

- Mas como eu vou pra lá!? Eu já te falei do-

- Seu pai, eu sei, eu sei! Já pensei nisso, Téo!

Ele riu e, como sempre, continuou com a mão na minha, porém bem curioso e com aquela feição de hesitação.

- Eu sei que ele nunca vai te deixar ir pra favela. Mas e se tu disser que vai dormir na casa de um amigo da zona sul?

- Tanto você quanto o meu pai sabem que eu não tenho amigos, Dudu. - pausou e me olhou. - Tirando você, que é o único.

Contive um sorriso fácil e ele mesmo deu um risinho antes de continuar.

- Ele com certeza desconfiaria, ia querer saber o endereço, mandaria o motorista me levar e buscar..

- Sim, Téo! Mas então, é só tu-

- Não, Eduardo. Não adianta!

Não precisou de aumentar o tom de voz, apenas ficou daquele jeito normalmente sério, só que agora olhando pro nada existente além da janela da nossa sala de aula.

- Essa não é uma coisa que eu consiga fazer sem gerar briga, você me entende?

Aquele olhar gracioso e frio. Com certeza ele estava cheio de pessoas que diziam entendê-lo e não o entendiam, eu não poderia e nem queria ser mais uma delas. Mesmo querendo a presença física do Téo, me contive e deixei cobrir pela vontade dele, justamente pra não ser mais um gerando briga em sua vida.

- Eu não sei se te entendo, mas respeito.

E queria mesmo entender, só pra não ter que desconfiar de que, de repente, talvez ele mesmo nem quisesse ir. Talvez aquele fosse seu limite de amizade, digamos assim. Pra não pensar muito nisso, voltei a enrolar no assunto.

- Tudo bem então. Mas vamos combinar assim, tu tem que treinar melhor essa mão. - gastei. - E a outra também!

Ele voltou a rir.

- Mas você sabe que eu treino mesmo? Eu decidi que posso te destruir com as duas, comecei a trabalhar nisso!

Gargalhei de deboche pra provocar.

- Então já começou bem, né? Perdeu de lavada agora!

- Isso não foi nada, jovem! Só me desconcentrei, pode apostar que em breve eu te deito até com a minha direita!

- Até parece, playboy! HAHAHA

Ficamos nessa gastação quase o tempo todo de intervalo. Até que, no silêncio absoluto da ausência de gente, ele ficou me olhando e eu olhando pra ele. Eu sentado de lado numa carteira, quase que deitado, e com os pés pra cima de outra, ele todo comportado na dele, mas virado pra mim e me olhando. Comecei a ficar excitado de verdade com a possibilidade de estar sendo lido da mesma forma como anteriormente, quando o Téo me encarou durante a primeira queda de braço que fizemos. Senti que estávamos prestes a entrar num outro nível do nosso laço, até o ar ao redor ficou mais quente. Meu sangue começou a correr e eu tive que provocar.

- Fala pra mim.. - disse bem baixo.

- O que?

Ele pareceu entrar no clima, até o tempo de resposta foi envolvente. Eu abri um pouco as pernas e seu campo de visão ficou exatamente entre elas, de forma que, pra me ver, seus olhos foram obrigados a mirar próximo do volume se formando na parte de baixo do uniforme.

- Fala o que tu anda fazendo pra treinar a mão direita..

E acenei com a mão pra mostrá-lo do que estava falando, dando a entender que havia alguma safadeza oculta por trás da sentença. O moleque sorriu sacana bem de leve e continuou a explicar.

- Eu escovo os dentes..

- E mais o que?

Peguei suave na mala e ele prosseguiu indócil.

- As vezes eu escrevo..

- Uhum.. E tem mais alguma coisa?

O sorriso ultrapassando sua vontade de permanecer neutro. A boca abriu e esperou, evidenciando um pouco da empolgação sexual que todo adolescente tem no corpo em chamas. Demorou, mas estava saindo.

- E as vezes..

A pausa do deleite.

- Só as vezes mesmo..

Os lábios fecharam e abriram pra me denunciar o que eu mais quis ouvir. Meu próprio cacete endureceu que nem pedra, mas a mão em cima só esperando dar a largada principal.

- Eu ba-

A porta da sala abriu e entrou o mulatão alto e corpudo, filhote de militar cruzado com lutadora, todo suado pelo sol externo. Sem blusa, o peitoral molhado de suor pela provável e curta partida de futebol lá em baixo, e empesteando a sala com seu cheiro forte de homem que correu, transpirou e se esforçou bastante, só pra garantir a própria vitória num jogo de intervalo, por isso estava transpirando e ofegando feito um animal, os olhos atentos, como se estivesse vasculhando por algo dentro da sala. O elástico do calção tão abaixo da cintura que não tive como não notar a entrada de pentelhos de fora. Me ajeitei rápido e o Téo parou de falar, encarando o Moreno sem dó, como se ele tivesse cometido um pecado. E realmente cometeu.

- Desculpa interromper, meninas!

- Que nada, flor! - gastei ele.

Depois da zoação, me cumprimentou com um aperto de mão e só deu um oi pro meu rival. Sentou na própria carteira, que estava entre nós, e isso morreu de vez com o assunto. Esse foi um dia no qual eu passei o resto da aula de pau durão, me segurando pra não sair e bater um punhetão no banheiro do colégio mesmo. E bati, não teve jeito, mas só na hora de ir embora, ouvindo os outros moleques mijando no mictório do lado de fora e o barulho do mijo caindo farto na chapa de metal. Gozei que nem leiteiro no vaso do boxe sanitário, dei descarga e saí pra lavar as mãos, batendo de frente com o Moreno de novo. Tentei passar pelo lado, mas ele pôs o corpão imponente na frente e me fechou. Tentei pelo outro e novamente a mesma situação. Ele mostrou os dentes e veio andando pra me cercar, só nós dois agora no banheiro. Fomos até o canto, o puto pôs o bração firme fincado na parede e por cima do meu ombro, me deixando sem ter por onde fugir. Senti o cheiro do suor escorrendo, os pelos das axilas quase me tocando e o safado ainda rindo, abrindo devagar as presas e quase babando, sedento, tomado por alguma coisa.

- Tu não me assusta, não, vagabundo! Eu sei qual é a tua! - sussurrei pra ele.

Ainda apontei na cara, porque comigo não tinha desses abusos.

- Ah, tu sabe qual é a minha, é?

Ele segurou meu dedo no ar e veio colocando sobre seu tórax de molecote pré-milico, rígido, estufado e bem firme, ainda molhado pelo suor do metabolismo acelerado e do sangue corrente. Deixou minha mão lá e aí apontou na minha cara, dedilhando meu lábio inferior com o polegar pra poder ver meus dentes.

- Tu tá andando muito com aquele pombinho, eu não tô gostando nada disso, Dudu..

- E tu tem que gostar, Moreno? Se liga, viado!

Pronto, aí ele riu mesmo. E estalou o dedo próximo à minha orelha.

- Que isso? - perguntei.

- Esqueceu, né?

Já tava ficando puto, mas confesso que aquela malícia e truculência me excitaram, justamente por eu saber que ele tinha o sangue quente como o meu e não tava nem aí pra me cercar daquele jeito no banheiro do colégio, mesmo com a fama de pegador das meninas, o machinho comedor de um mundo onde perder a virgindade era o sonho adolescente. Ficar excitado mesmo depois de ter gozado só evidenciou ainda mais que a necessidade era real.

- Eu disse pra tu que tu era meu pato, num disse? E que era só estalar o dedo!

Estalou outra vez, mas agora me imprensou na parede e me fez descer ao chão com força nos ombros. Em poucos movimentos, ameaçou remover o cinto e eu agarrei suas coxas firmes e apertei as mãos na massa de músculos delas, só pra ter a certeza de que aquele era mesmo o Moreno e que ele estava realmente disposto a fazer o que pensei que faria. Ou melhor, que eu saciaria uma das vontades mais primordiais que tinha com ele.

- Hoje tu vai me mamar aqui, porque eu tô cheio de tesão e não vou bater punheta! Mas pode apostar que numa oportunidade maior esse cuzinho é meu!

Eu quis rir por dentro, porque esse era o tipo de coisa que alguém como eu diria pra outra pessoa num momento de luxúria consensual, então me vi falando comigo mesmo. E estando eu no lugar de ouvir e de falar, estava também na mesmíssima condição de dizer a ele o que alguém como eu gostaria de ouvir naquele momento.

- Tu é o Moreno mesmo?

Olhando pra baixo, ele desabotoou a calça e riu pra mim. Os braços musculosos de fora, a parte de cima do uniforme adaptada para exibi-los, o corpo rente à frente, empinado pra me impor a condição do seu desejo sexual latente, a cabeça raspada já no futuro molde do aspira a militar e a cara de moleque que ia brincar comigo.

- Tá acreditando não, viado? Pode acreditar, hoje é o teu dia!

Pra mostrar o poder do meu sangue agitado, arriei sua calça num só puxão pelas laterais, deixando ele um pouco animado pela minha vontade. O puto mordeu o lábio.

- Assim que eu gosto! Pode se soltar que eu passei a chave na porta!

Aquele era um macho piranho de verdade. Fiquei de cara pra cueca boxer volumosa, mas meu desejo de corpo era detalhado demais pra começar no óbvio. Enfiei o rosto por entre as coxas peludas e malhadas do mulato e comecei a lamber seus pelos e dar pequenas mordiscadas de um lado pro outro, me deliciando em linguadas explícitas por entre músculos, definições físicas e outros relevos da pele. Ele viu isso e não recuou, bem como eu soube que seria. Senti todo o cheiro de pentelho e masculinidade aflorada naquela pele. Com as mãos, subi pela parte traseira das coxas e agarrei a bunda malhada do safado, mas ele nem se deixou hesitar, porque certamente as garotas também deviam ser loucas por aquele rabo.

- Cadela, olha pra mim!

Eu olhei com o corpo e o olhar em chamas pra cara dele, e vi a mesma coisa que ele viu em mim naquele exato momento: o fogo do homem quente. A soma de duas forças iguais que se tornam um fluxo maior e mais intenso, de mesma direção e sentido semelhante. O clímax dessa temperatura elevada é muito perigoso, porque torna tudo muito possível no sentido carnal da necessidade. Um vulcão! Então me empolguei mesmo, agarrei a cara daquele homem e dei-lhe um lambidão no rosto todo, aproveitando do pouco tempo que tínhamos e também que ele ainda podia dispor de uma barba curta. O corpudo se soltou e chupou minha boca sem medo, contrariando o que pensei dele, talvez pela excitação exacerbada. Deu-me tapinhas na cara e mordeu-me os lábios, sarrando o volume nada discreto de piroca no meu corpo.

- Tu é uma vagabunda, né?

- Só hoje!

Abaixei outra vez, lambendo o tórax e os músculos do braço dele enquanto desci. Passei pelos sovacos, senti o cheiro de macho e inalei profundamente através do suor, lambendo todo o gosto salgado da avivada melanina do Moreno. Ali estava o resultado atual de seus treinos e tempo investido em prol de um objetivo, ou seja, ali estava a honra e dedicação daquele rapaz, eu tive certeza de que admirar aquilo era admirá-lo. Fiz muito disso olhando pra ele e o vendo me conduzir o rosto, especificando onde queria atenção. Até que a pressão aumentou e cheguei nos pentelhos, que fiz questão de cheirar e molhar na boca. A cabeça de uma vara não muito comprida, porém grossa, já tava de fora, e ainda era babona, molhada de pré-porra, relutando contra o elástico da boxer pra respirar. Toda solta do corpo, cabeçuda e escura como ele, além de muito cheirosa. O volume de um sacão pesado abaixo, cheio de leite. Ele tava com fome!

- Olha o que tu faz comigo!

- Olha o que eu ainda vou fazer contigo!

Não dei tempo, abri a boca e engoli tudo com facilidade, mesmo se tratando do primeiro boquete que paguei até então. Tão adolescente, jovem e curioso, me acabei de sugar, chupar, lamber e deixar ser fodido na boca pela caceta insaciável do Morenão gostoso da minha classe, meu primeiro desejo sexual. Agarrei pela base, esfreguei o cabeção na parte áspera da língua de propósito e ele não se aguentou, até bambeou as pernas e arrepiou os pelos do corpo, recuando um pouco de nervoso.

- Caralho, Dudu!

- Um moleque desse tamanho e não tá se aguentando na mamada?

- Não me subestima, não, viado!

Segurou minhas orelhas e brincou de foder como se fosse um cu ou uma pepeca. Deu um pouco de nervoso, ainda mais pela submissão relacionada a isso, mas me permiti tanto que não havia sentido em parar por ali. A boca foi ficando com um gosto adocicado várias vezes, mas aí a gente alternou e fez alguma outra coisa. A brincadeira já havia passado de vinte minutos e eu sei bem o porque. Meu cu não parou de piscar, doido pra ser possuído, assim como a vara do Moreno só fez inchar e o saco pesar. Entre nós, estava bem explícito que ele queria comer e eu queria dar, mas estar naquele banheiro do colégio favoreceu e desfavoreceu a putaria ao mesmo tempo. Nosso desejo era o mesmo, as condições que não. Além das obrigações individuais de cada um, não poderíamos continuar ali de porta fechada, uma vez que isso chamaria mais atenção do que já ia chamar quando saíssemos. Só que, ao mesmo tempo, havíamos ido longe demais pra ter que recuar agora. O que fazer?

- Vem cá, piranho!

O Morenão sabia do que precisava e não era virgem que nem eu pra não ter experiência de foda. Ele juntou o útil ao agradável ao seu estilo putão. Puxou uma espécie de casaco todo amassado da mochila, forrou no chão e me mandou deitar normalmente.

- Tu não merece esse conforto, não, mas vou te dar essa moral! - me gastou.

Deitei e ele deitou por cima, só que com a virilha na direção do meu rosto, enterrando o caralho na minha boca sem dó. Mal começou, foi só brincando com o quadril, como se estivesse mesmo fodendo um cuzinho, fazendo a boca de rabiola e batendo insistentemente o saco impune no meu queixo.

- Ssss! Agora sim!!

Pra completar, foi comendo e fazendo flexão sobre mim, aí começou a suar e tudo foi escorrendo pro meu corpo. Com as mãos livres e a garganta tomada de cacete, aproveitei pra tocar seu corpo e explorá-lo ainda mais, mexendo em cada canto, sentindo cada detalhe do músculo ou dos pelos das rígidas coxas de atleta. Subi as mãos e apertei os mamilos gostosos, que ficaram duros ao meu toque e a partir daí ele começou a gemer sem medo.

- Sssss

Os pentelhos atolando nas narinas, o cheiro de baba de porra dominando. A rola foi engrossando dentro desse ritmo, eu tive mais dificuldade em respirar, o gosto doce cresceu e ele nem deu sinal de cansaço das flexões, atleta nato. Mas o orgasmo emergiu intenso com tanta passada de cabeça no céu da boca e na língua, o nosso vulcão em conjunto estava prestes a explodir.

- Porra, Dudu! Tu num queria? Aí! SSSS

Parou um pouco o quadril e botou no fundo, gozando além da garganta. Uma, duas, três, quatro, cinco jatadas de gala que mal senti o gosto, por conta da distância profunda em que estava a pica. O sacão até aliviou de peso no meu queixo, porém seu cheiro permaneceu assim. Com a mão, ele tirou o resto que ficou na uretra, espremendo o caralho na minha boca e aí sim me permitindo sentir o sabor doce do esperma masculino de um atleta delicioso. Ainda chupou os próprios dedos sem pena, nem aí pra nada, um putão genuíno. O Moreno me ajudou a levantar e nos ajeitamos pra poder sair logo do banheiro. Rindo com aquele jeito cínico, ele lavou as mãos e me olhou pelo espelho.

- Limpa a boquinha que tá suja de leite. - gastou.

- Lava o pau quando chegar, se não vai sentir o cheiro da minha boca!

Dei-lhe um tapa no peitoral dividido e suado e ele tentou morder minha mão.

- Habilidoso, você! Deve ser acostumado a chupar uma vara, né?

Ele não sabia que eu era virgem.

- Gostou, é? - rebati.

O Moreno terminou o que estava fazendo, destrancou a porta e saiu primeiro, eu ainda permaneci uns minutos trancado num boxe pra poder dar tempo de não levantar nenhuma suspeita, já que fofoca de colégio espalha rápido. Contei uns cinco minutos e meti o pé sem muitos problemas. Em casa, bati duas punhetas com o gosto do leite dele na boca, além do cheiro do suor de seu exercício em meu corpo e o do saco no queixo. Fui dormir tão leve e cansado depois do banho, que acordei até sorrindo e contente no dia seguinte.

Não comentei nada do que fiz com o Moreno com ninguém, nem com meu melhor amigo, o Téo. Não por medo ou receio, mas porque com ele as coisas estavam se desenvolvendo no seu próprio ritmo, fosse lá em qual sentido, então até poderia comentar um dia no futuro, dependendo de qual fosse. No dia seguinte, no colégio, o próprio Morenão passou por mim no corredor e só olhou de rabo de olho, não disse nada. Ao entrar pela porta da sala, deu aquela sorrida cínica e pegou de leve na mala, como quem tivesse tirando o elástico da cueca só pra eu perceber. Entrei e dei de cara com o Téo me encarando sério, meu pensamento é de que ele viu e não curtiu a atitude, mas não falamos sobre isso. Com o passar do dia, voltamos ao normal em nossas conversas, treinamos queda de braço e, como sempre, fui descobrindo mais coisas sobre ele. Na hora do intervalo, ele tava passando matéria a limpo.

- Tu copiando coisa de aula? Né possível, vai cair uma tempestade!

- Para de graça. - respondeu.

- É sério, por que tu tá copiando isso?

- Bom..

Pausa.

- Eu te disse que tava treinando, né? A direita?

E mexeu a mão.

- Sim, e aí?

- E aí que passei as aulas tentando escrever com ela, isso me atrasou. E o resultado ainda não tá bom.

Mostrou a letra pouco torta no que escreveu mais cedo, mas eu achei muito maneira a iniciativa dele de realmente conquistar seu objetivo, sendo que eu só falava que ia derrotá-lo justamente com a esquerda, mas nem investia nisso. O moleque tinha muito empenho.

- Caralho, tu mandou muito, Téo!

Ele até ficou sem graça.

- Olha pra isso, cara! Quem me dera escrever com as duas mãos que nem tu!

Aí disfarçou a timidez e foi conversando.

- Ah, que nada, Dudu! Nem posso dizer isso ainda. Treinei umas redações e só, nada de mais..

Aí folheou o caderno e mostrou várias páginas escritas de redações.

- Olha, tu ainda treina redação! É muito empenho! Xô ver!

Mesmo sem ele permitir, peguei o caderno e parti pra leitura do que ele andou escrevendo. Eram infinitos textos diversos, todos no estilo dissertativo-argumentativo e bem cientes e trabalhados dentro das regras padrões de escrita, pelo menos ao meu ver de aluno do ensino médio. Eu fui lendo e ficando impressionado com a habilidade argumentativa dele nos mais diversos temas, desde exploração espacial até violência urbana, coisas que eu mesmo achava um porre. Até sobre política o moleque escreveu, porém nem cheguei a ler de tanta aversão ao tema. Uma coisa que eu detestava era política!

- CARALHO, TÉO! TU É MUITO FERA, BICHO!

Foi aí que ele ficou mais sem graça ainda.

- Para, Dudu! Já te falei que não gosto disso!

- MAS É SÉRIO! Mano, tu escreve muito bem! Por que tu não investe logo nisso? Olha pra isso, isso aqui é nível de concurso, Téo!

- Não aguento você!

- É sério, Téo! Faz o seguinte..

Estiquei o braço direito na mesa, meu melhor, só pra dificultar pra ele. O moleque riu animado e já veio empolgado pra nossa clássica queda de braço de sempre. Cotovelos na mesa, mão na mão, intervalo só nosso na sala de aula.

- Quando quiser! - falei.

Ele apertou firme e, num só movimento, deitou meu antebraço na superfície lisa da carteira.

- Ganhei, Dudu! Nada das suas ideias!

- Não, você tá enganado!

Eu havia perdido, mas a ideia estava aí. Perdi pro braço que estava em treinamento, ou seja, era mais do que a hora ideal pra mostrar ao mundo o resultado de seus treinos. Ele ainda fez cara de dúvida, mas expliquei.

- Tu me deitou com esse braço aí, Téo, então tu já é sinistro! Isso só prova que tu tem que usar essa força pra alguma coisa!

- Você é louco!

- Não, cara! Faz o teste, pô! Mostra essas redações pra professora de português e vê o que ela diz. A gente ainda não se preocupa com vestibular, mas vai que até lá tu já treina pro mil no ENEM!? Nunca se sabe!

- Que nada, isso ainda tá muito longe!

Fiz cara de que havia desistido e entreguei a ele o caderno. Ele não entendeu, então virei de costas como quem fosse sair da sala.

- É, tu tem razão. Deixa pra lá, então..

Fui saindo e ele me chamou.

- Não, pera!

Virei.

- Que foi, Téo?

- Talvez você tenha razão, não custa nada mostrar pra professora!

- Tá falando sério?

- Sim, ué! Ela só vai me dizer o que precisa mudar, né? Não deve ser tão importante assim..

- Isso!

Eu poderia dizer que foi essa escrita do meu amigo que modificou completamente tudo que se desenrolou em seguida na nossa amizade. Ele realmente mostrou as redações pra professora de português, só que ela gostou mais do que o esperado e se habilitou em aprimorar ainda mais as competências de escrita do Téo. Ele passou a fazer algumas aulas adicionais de redação e isso até diminuiu nosso tempo junto, mas em prol de algo maior, que poderia até mesmo ser o futuro dele, caso desse certo. O resultado imediato disso foi que, no simulado corrigido pela banca que também costumava avaliar provas de concurso, meu amigo recebeu nota 900, sendo essa a maior já atingida por algum aluno do nosso colégio até então. Na época, o Téo ganhou até medalha e ficou todo alegre, olhando pra mim e sorrindo enquanto posava em fotos de agradecimento com os professores, como se fosse grato pelo pouco que eu fiz pra vê-lo feliz. Talvez a recompensa fosse minha por vê-lo daquele jeito. Mas nem tudo são maravilhas, nem pra mim e nem pra ele. E aí começou a parte do "completamente" que eu disse que se modificou após a descoberta da direita.

No primeiro dia de aula após o final de semana da redação, o Téo não apareceu. Aquela foi a primeira vez que ele faltou aula e não me avisou antes, ou melhor, apenas faltou. As vezes ele contava quando se atrasaria, o que já era raro por si só, mas não foi o caso naquele dia. Fiquei preocupado à beça, até fui na secretaria perguntar se podiam me passar o número da casa dele, mas nada rolou, eu não tinha celular. Mesmo em casa permaneci preocupado, até meu pai percebeu.

- Cadê o seu irmão?

- Não sei, não vi.

- E por que tá com essa cara? Já estudou, moleque!? Tem que estudar!

Dormi um pouco preocupado aquela noite, esperançoso de vê-lo no dia seguinte. Ele apareceu na terça-feira com os olhos um pouco inchados e mais sério do que o normal, preferindo ficar sozinho. Quase não falamos até a hora do intervalo, quando ficamos sozinhos na sala e aí tive que puxar assunto.

- O que tu tem, cara? Não veio ontem, não é de faltar.. Tá tudo bem?

Ele me olhou com aquele olhar de quem segura o choro e eu me senti destruído por dentro. Alguém fez algo pra deixá-lo daquele jeito e alguém teria que se foder por isso, do contrário, era injusto vê-lo mal. Levou um curto tempo, mas começou a explicar.

- Bom, você sabe né, Dudu..

Esperou um pouco e seguiu.

- Meu pai falava pra eu aprender a usar a mão direita.

- Sim..

- Eu tô conseguindo, até tirei aquela nota na redação e fui mostrar pra ele.

- E aí? Ele não ficou feliz? Uma nota daquelas, ela queria o que, mais? - eu mesmo já tava nervoso.

Aí ele parou de falar. Me olhou sério e a lágrima escorreu. Nesse dia estava nublado, a chuva do lado de fora pareceu ter vindo junto. Silêncio interrompido por água caindo forte no chão. Cheiro de terra molhada e mais outra lágrima do olho do Téo descendo. Ele não segurou mais, fez a cara de choro e escondeu o rosto.

- Não, não, não! Não se esconde, Téo! Que isso, cara!

Entre debulhadas, tentou continuar.

- Ele disse pra mim que nunca ficaria feliz por eu escrever! Ele falou que isso não dá vida a ninguém, porque não dá dinheiro, e que eu tô jogando o dele no lixo, perdendo tempo com coisas bobas!

Eu abracei meu amigo e ele chorou no meu ombro. Eu queria socar a cara do pai dele, tanto por ter falado aquilo quanto pela mente pequena dele em subestimar o poder forte e incomparável que tem a escrita. Mas mais que isso, eu queria estourá-lo por fazer o próprio filho chorar. Se você tem filho ou filha, sua obrigação é ser amigo ou amiga dele ou dela, não adianta ser só pai ou mãe e tentar impor condição. Tem que ter o laço forte da amizade, porque, acima de tudo, nós filhos também somos gente, humanos que nem os pais.

- Não fica assim, cara! Esse seu pai não te conhece, não sabe do poder que tu tem nas mãos!

Ele só soube chorar.

- Olha, já sei! Espera um minuto que vou te buscar uma água gelada. Enquanto isso, tu respira fundo que já volto!

- Tudo bem, Dudu!

Estava saindo pela porta, ele me chamou de novo. Virei.

- Brigado, tá?

- Ah, que isso, né?

Fui rápido ao corredor lateral e alcancei o bebedouro. Enchi um copo enquanto vi a chuva cair e constatei que algo precisava de ser feito. Foi aí que, distraído, uma mão me puxou pra trás pela cintura, bem no meio do corredor vazio. Senti um volume entre as nádegas, algo me cercou e impediu de sair. Virei assustado e era o Moreno.

- Eu avisei que vinha pegar esse cu, num avisei?

Sem qualquer medo, mas ainda assim escondido atrás do bebedouro, ele me encoxou e apertou contra si, porém não obteve a resposta física ou energética que procurou.

- O que tu tem?

- Ah, a vida é meio zoada as vezes.. - respondi.

O copo terminou de encher, então peguei e ia voltar a andar, mas o mulato me cercou e insistiu.

- Tem certeza que eu não dou uma solução?

Apertou a mala e me olhou sorridente. Eu não quis insistir, mas não cedi. Fui curto e grosso que nem ele.

- Rala, Moreno!

Ele saiu da frente e me deu passagem, mas não sem fazer a cara de surpreso. Se me conhecia, entenderia que eu não tava no momento. Voltei rápido à sala e o Téo tava mais ou menos naquele final de choro. Bebeu a água devagar, me agradeceu de novo e continuou assim meio mais ou menos.

- Olha, eu quero me desculpar. Fiquei insistindo pra tu se meter nessas redações e agora deu nisso. - falei.

- Nada a ver com você, não, Dudu. Meu pai que é um otário mesmo, você não falou errado.

Pensei um pouco.

- Se tu entende isso, então entende que não pode desistir, né?

Segurei sua mão e ele me olhou. Sorriu entre os olhos cheios de água e fez que sim com a cabeça.

- Não gosto de te ver assim. Por que tu não vai lá pra casa hoje e a gente fica conversando até de manhã? Aí depois vem pro colégio junto, não tem mistério.

Ele parou e esperou. Acreditei que receberia uma resposta negativa, mas fui surpreendido.

- Vamo, foda-se. Ontem eu matei aula pra ficar chorando em casa, hoje posso matar pra ficar na casa de um amigo.

- Mas tem que avisar teu pai, né?

- Eu aviso, mas depois que já estiver lá, se não vai dar errado.

- Ótima ideia, então! Tenho certeza que a gente ainda vai rir muito dessas coisas num futuro longínquo!

Sorri e ele sorriu também. O resto das horas passou voando e eu meio nervoso por finalmente conseguir apresentar meu melhor amigo à minha família. Não somente por isso, ele era um cara da zona sul e eu da zona norte, favelado, um extremo oposto do qual já nem me recordava mais, de tão pouco espaço entre nós recentemente. O Téo foi destemido, pegou o ônibus comigo e voltamos sem chuva. Quando chegamos no pé da favela, a cara dele foi a que eu já esperava.

- Você mora aqui?

- Sim, mas não precisa se assustar. Aqui é minha casa desde não sei quando, todo mundo vai gostar de tu!

- Todo mundo quem?

- Meu pai e meu irmão, mas eles ainda não chegaram.

- E sua mãe?

Esperei um pouco e respondi sorrindo.

- Eu não a conheci. Mas todo mundo aqui fala muito bem dela, que ela foi muito boa pessoa, muito educada.

- Poxa, desculpa, Dudu. Eu não sabia e-

- Relaxa, cara! Não tem problema!

Apresentei minha casa ao Téo e ele pareceu entretido, apesar da diferença do que deveria ser para a mansão dele. Mostrei onde eu dormia com meu irmão num quarto e também onde meu pai dormia sozinho no outro. Mostrei também o notebook velho onde eu jogava e onde meu irmão muito raramente estudava sobre câmeras, redes e essas coisas de informática. Ele foi me seguindo por entre os poucos cômodos. No fim de tudo, subi pelo telhadinho e fomos ao curto terraço sobre minha casa, de onde meu irmão mais velho fumava as vezes e soltava pipa. Sentei no chão ainda meio úmido e ele sentou do lado, mas sem falar nada. Percebi sua quietude extrema e falei.

- Que foi?

- Essa paisagem, Dudu..

- É, eu sei!

Olhei pro céu escuro, que agora estava com poucas nuvens, e, do alto da favela, pareceu ser possível de tocá-lo. Não havia lua, só o brilho forte das estrelas lá em cima. Fora isso, um frio fora do comum me arrepiando a pele. Eu não estava sozinho, o Téo tava sentado do meu lado, encostado em mim, de forma que a gente tava quase de costas um pro outro, que foi o que fiz questão de fazer. No fim das contas, minha espinha apoiada na dele, cada um virado pra um lado. Eu sabia que ele estava impressionado com as estrelas tão próximas, mas acabou que o impressionado fui eu.

- Essa visão!

O Téo não estava olhando pra cima, e sim pra baixo. Da laje, ele conseguiu um campo de visão certeiro até à parte baixa da favela e também da pista lá no final, muitos quilômetros de becos e vielas de labirinto suburbano e tijolo abaixo. Só que, por conta do escuro da noite, as janelas de cada uma daquelas casas e barracos estavam todas acesas, ou seja, servindo como uma forma de iluminação alternativa ao breu noturno, semelhante a como as estrelas fazem no mesmo céu à noite sobre nossas cabeças, mesmo sem lua. Os carros passando pela avenida viraram flashes de luz. Naquela posição, um de costas pro outro, éramos extremos opostos se completando, sem sombra de dúvidas. Isso formava um sistema único, porque, a visão que eu tinha, ele tava tendo num sentido oposto, porém em mesma direção. Nós nascemos pra isso, eu e o Téo, pra sermos assim. Eu no sangue quente, ele no olhar frio. Ele na cor azul, eu na cor vermelha. Eu olhando pra cima, ele olhando pra baixo. Ele na mão esquerda, eu na direita. Só que, pra ser sincero, ultimamente já estávamos mais do que misturados. Como se eu pudesse ser uma direita meio esquerda. Ou então ele uma Esquerda Direita, não importa.

Eu só sei que estava sentindo a espinha dele roçar na minha, num equilíbrio único entre energia e temperatura corporal. Virei devagar pra ficar outra vez do lado dele e me apoiei com os braços pra trás. Sem hesitar, Téo foi se encostando e deitou com a cabeça sobre a minha perna. Olhei pro rosto dele e ele fechou os olhos pra poder descansar sem qualquer preocupação, foi aí que me senti nostálgico e feliz ao mesmo tempo. Algo diferente de excitação e competição e que fez meu sangue ficar quente, mas não acelerar. De repente era outra coisa que eu estava pra descobrir, ou então redescobrir. Alguma memória me passou pela mente e foi mais forte que eu, a mão foi direto no cabelo do Téo e o carinho se iniciou, os dedos brincando de deslizar por entre uma de suas finas costeletas. Ele abriu os olhos e riu amigável pra mim, me dando uma imensa sensação de paz por ter aliviado um pouco da dor de ouvir o que ouviu do pai. Eu nunca mais queria vê-lo chorar na vida, aquele seria meu objetivo, assim como o dele foi começar a escrever com a mão direita, estava decidido. Sorri de volta.

- Que foi, Dudu?

- Não é nada..

No cérebro, a memória mais antiga tentou se refazer, porém eu ainda não era tão capaz assim de recapitulá-la. A favela não era um campo aberto e gramado, só a noite que era escura e fria. E minha mão acarinhando o cabelo curto do meu melhor amigo, fazendo seu doce perfume de cereja exalar forte, junto com o frio gostoso. O sangue fervendo, mas eu nunca estive tão mais tranquilo. Ele ficou me olhando fixo.

- Não é nada mesmo?

- É que talvez tu tenha me lembrado de alguém..

- Quem? - riu.

- Eu ainda não lembro.. De repente eu sonhei com algo assim, sei lá.

- Você sonhou comigo? - gastou e ainda deu um soco de leve no meu ombro.

- Te manca, moleque!

Ficamos rindo e desfrutando desse tempo gostoso e acima de qualquer problema e preocupação, só nós dois. A nostalgia pareceu como uma calmaria antes da tempestade, independente do fato da chuva ter caído bem antes de chegarmos àquela laje na favela. Meu pai chegou depois de um tempo e meu irmão ainda não, deixando ele um pouco preocupado. Apresentei o Téo, eles se cumprimentaram e conversaram sobre colégio, estágio, curso técnico, essas preocupações em comum de quem entende de educação. Jantamos, cada um tomou seu banho, e ainda ficamos batendo papo no meu quarto até tarde. Eu dormi na cama do meu irmão mais velho, porque, seja lá por qual motivo, ele não voltou pra casa naquela noite. Meu melhor amigo dormiu na minha cama. Talvez fossem os primeiros sinais de que a vida poderia ficar inimaginavelmente séria de uma hora pra outra, diferente de quando estávamos juntos sob o céu noturno e sem lua. De repente era por isso mesmo que o céu estava sem lua. Mas, até o momento, podíamos simplesmente descansar um ao lado do outro, eu observando a respiração calma do amigo que estava triste por causa das opiniões do próprio pai. "Nunca mais vão te fazer chorar", prometi a mim mesmo. Dormir e acordar ao lado do Téo pela primeira vez na vida foi uma coisa totalmente inédita. Quero dizer, dormir bem por vê-lo bem e acordar ainda melhor por presenciá-lo despertando foi maravilhoso, justamente por estar em sua presença fora do colégio, só nós dois. Meu pai já tinha ido pro trabalho e nada do meu irmão. Tomamos café em silêncio, só ouvindo as primeiras notícias do dia no jornal e eu com a mente decidida: estaria o máximo possível do meu tempo com o Téo, tanto por querer protegê-lo daquelas ideias negativas que o fizeram chorar, quanto por não aceitar menos do que isso, agora que passamos uma noite inteira juntos na mesma casa, no mesmo quarto. Enquanto isso, na TV:

- "EXCLUSIVO: quadrilha de assaltantes ataca na zona norte!"

O pai do Téo brigou com ele por ter decidido dormir fora de casa, porém não acarretou em outras consequências negativas, já que avisou que estaria na casa de um amigo da zona sul, bem como sugeri uma vez. Aquela semana foi uma das últimas antes das férias, sendo que nós deixamos combinado que eu tentaria viajar ou ao menos encontrar com ele perto da casa de praia pra onde ele iria, já que seu pai com certeza não aceitaria me levar. O planejado foi ótimo, a gente mal se despediu um do outro no último dia de aula, justamente por contarmos de nos ver muito em breve. Só que não. Não pôde ser assim. O noticiário da TV não mentiu e nem me traiu, quem me traiu foi a vida e as voltas irônicas que ela dá. Meu pai descobriu que meu irmão mais velho estava envolvido com roubos, sendo um dos ladrões, mesmo não tendo machucado ninguém. Lembro-me bem de quando entrei pela sala e o vi chorando sentado no sofá, meu irmão ajoelhado aos seus pés em prantos e pedindo desculpas.

- Eu te pedi tanto! Eu te mostrei tanto o poder da educação!

- Eu sei, pai! Eu sei, eu me arrependo muito!

- O que a gente vai fazer sem você aqui, me diz? O que eu vou falar pro teu irmão?

Só que eu estava ali. Foi assim que descobri que meu irmão apelou e topou fazer parte dos assaltos como piloto de fuga, mas tudo deu errado e ele acabou preso. Quem ajudou a soltá-lo foi um dos chefes do tráfico da favela, que deu-lhe um preço: vai trabalhar pra gente, é uma dívida eterna. Nosso pai não teve a coragem de conseguir escolher entre um filho preso e futuro marginal ou um filho solto e marginal para sempre. A situação fez um ladrão da forma mais irônica o possível, porque quem decidiu foi meu irmão mesmo. Ele saiu da cadeia sem nenhum arranhão, só a passagem anotada. E nunca mais pisaria no asfalto, do contrário.. Bom, do contrário eu não saberia dizer. Minhas férias foram focadas em tentar ficar de olho no meu irmão em casa, mesmo sabendo que toda missão que fosse dada a ele, ele teria que cumprir. Logo no primeiro dia das férias, o noticiário da TV já me deixou tenso.

- "Tentativa de assalto na zona norte termina com morte de inocente pela manhã!"

Quatro quadras da minha casa, eu querendo não cruzar probabilidade com violência urbana naquele momento. Pensei também no meu pai na rua e foquei em não enlouquecer. Durante as noites, meu coroa não aguentava de tanta pressão e conversava muito comigo sobre sociedade, violência urbana e política, sempre focando em como a educação era a base de tudo numa sociedade moderna e correta, democrática por direito. Ele tentou muito abrir minha mente pro poder transformador dela, já que, um filho ele considerou perdido pro mundo, alguém que recusou os estudos e o mesmo não poderia acontecer comigo, o mais novo. Eu fiquei tão estranho e fora de mim, como se fosse outra pessoa mesmo, que preferi até não estar tão perto do Téo, justamente pra não afetá-lo de maneira alguma. Perguntei-me todos os dias se ele estava bem, fiquei de coração apertado pela total falta de notícias e não tive nenhum contato com ele, já que não tinha celular. Nem nos jogos ele apareceu, talvez isso tenha sido o que me deixou mais preocupado. Pra não falar dos traficantes colocando meu irmão mais velho pra dirigir nos assaltos que organizavam, e aí eu preferia nem contar ao nosso pai, segurando a barra só eu e ele.

- Eu volto, eu prometo! Cuida da casa, moleque!

O coração na mão, totalmente perdido sobre o que fazer. Eu sabia que ele nunca machucaria ninguém, mas seus comparsas sim. Duas semanas se passaram como se fossem dois anos e as férias finalmente acabaram.

Eu fui pro colégio sorridente, mesmo afogado nos problemas recentes e na chuva caindo, justamente por saber que encontraria meu melhor amigo, meu ponto de fuga. Ou será que ele era algo mais importante? Eu não sabia, mas estava bem próximo de admitir isso, já tinha mais do que motivos e razões. Só que, pra desanimar qualquer esperança, ele não apareceu. Foi nesse momento que meu sorriso virou quase um choro, porque foi uma confirmação de que algo não estava correto. Algum pedaço meu não estava no lugar. Um pouco antes de começar o intervalo, uma das diretoras veio chamar o professor na porta pra conversar e eu estava numa carteira próxima, então consegui ouvir parte do assunto.

- Aquele seu aluno e o responsável dele vieram buscar as papeladas dele.

- Eles vão embora mesmo?

- Estão decididos, professor. E não é por menos, né? Imagina perder a mulher assassinada pela violência urbana? Tive que entregar os papéis tentando não chorar, qualquer um ia querer mudar de cidade!

O tempo parou junto com meu fluxo sanguíneo. Parou pulsação, parou respiração, parou tudo. Eu não sei como, nem tava sentindo o corpo, mas levantei da cadeira e não pedi nada a ninguém, só comecei a andar em direção à porta do colégio. As passadas vazias se transformaram em trotadas e logo comecei a correr, os pulmões mais acelerados do que não sei o que. O céu nublado, um frio devastador do lado de fora, eu só parei e vi o carro. Meu melhor amigo parado imóvel na chuva, um cara um pouco mais velho que ele do outro lado do veículo, preparado pra entrar, mas ele imóvel.

- TÉO! - gritei.

Ele virou devagar e me olhou com aquele olhar morto. Eu não pude distinguir o que eram lágrimas e o que eram pingos de água da chuva, mas mais que isso, quase não vi os olhos dele, de tão pequenos estavam, tamanho o inchaço ao redor.

- Du..

Tentou, mas não disse mais nada.

- Téo, eu..

Não soube o que dizer. Seu frio avassalador e o vazio no olhar me esvaziaram de dentro pra fora. Diante de mim, estava minha promessa feita e quebrada. Meu orgulho e minha honra jogados fora. Eu prometi que nunca mais veria o Téo chorando daquele jeito, prometi que estaria com ele nas férias e, por conta do pior vacilo do meu irmão mais velho, não fui até lá e ele precisou de mim e eu não estava. Aquele era um dia merecido, um castigo merecido. Vi algo amassado em sua mão e tentei tocá-lo, segurá-lo, mas aquele vazio e frio sem iguais me impediram.

- Téo..

Só que, por mais que a vida fosse louca e muito aleatória, eu não tinha o menor direito de me sentir com problemas. Porque problemas são problemas, mas ironias existenciais são coisas muito maiores. Eu tive essa certeza na única vez em que presenciei e interagi diretamente com o pai do meu melhor amigo, o mesmo cara que o desencorajou a fazer algo que gostava e no qual era o melhor. Ele abriu a porta do carro todo bruto e virou na minha direção.

- ANDA, TÉO! JÁ TE FALEI PRA NÃO FICAR CHORANDO QUE NEM UM VIADO!

O Téo começou a soluçar e isso me preocupou. Quis muito abraçá-lo, mas meu medo dele sofrer ainda mais com alguma atitude do pai foi maior. O cara deu a volta e o puxou pelo braço, obrigando que entrasse no carro. O próprio coroa gritou com a voz embargada e sangue nos olhos.

- EU TE AVISEI, TÉO! VOCÊ NÃO QUIS ME OUVIR, NÃO FOI? AGORA TÁ AÍ! O IRMÃO DESSE MERDINHA ASSASSINOU A TUA MÃE, A MINHA MULHER! E EU TENHO QUE ME CONTROLAR PRA NÃO FAZER A MESMA COISA COM ELE!

Entraram no carro em prantos. Saíram. Fiquei ali sozinho tomando chuva. Tudo perdeu o sentido. A chuva, as cores, as temperaturas, as profundidades de todas as outras coisas. Eu só escutei e senti o vazio absoluto de tudo. Talvez o vazio seja a pior coisa a se sentir, porque ele dá espaço suficiente pra você se encher de qualquer sentimento. Até mesmo de ódio, por exemplo. Ódio puro, que inflama o sangue e bombeia veneno pra todo o resto do corpo, dando uma energia adicional que te deixa capaz de quebrar um portão, um cômodo inteiro de uma casa, basta que a carga seja grande. O meu primeiro passo debaixo da chuva foi o mais cheio. Não existiu mais vazio pra mim, só a lotação negativa e mental. Eu tinha uma solução justa pras ironias da vida, elas estavam nos meus punhos e no equilíbrio entre o nascimento do meu irmão e a morte da mãe do Téo. Eu só entendia de equilíbrio quando tava com ele ao lado, mas naquele momento nada disse existiu mais. Só ele. O ódio. Vamos falar sobre o ódio.

Eu caminhei sem chorar pela chuva. Não tomei ônibus, não peguei carona, só andei. Caminhei por mais de três quilômetros em passos fundos no chão e os punhos cerrados. Estava com tanto fogo no corpo que a água da chuva não poderia me esfriar, até no chão as poças entravam em ebulição por conta do meu ódio preso no peito. A mente metralhada dos piores pensamentos possíveis, as pernas queimando de vontade de consumir qualquer coisa com a minha força extra. Eu não abri, eu arrombei a porta de casa. Entrei na sala e vi meu irmão sentado no sofá.

- Dudu? Voltou c-

O pulso atravessou a cara dele pra trás. Um dente perfurou minha mão automaticamente e só então veio a dor que o ódio analgesia com quentura. Ele caiu e me olhou incrédulo, só então verificou o nariz sangrando e o lábio aberto escorrendo sangue.

- E.. EDU..

Continuei andando sem nem piscar, ele soube nesse momento que não poderia continuar parado. Mas continuou, meu irmão mais velho ficou onde estava e me permitiu levantá-lo pelo pescoço.

- Bate, Edu.. Pode bater!

Mesmo parado, ele começou a chorar.

- Bate, faz o que o pai não fez!

O meu coração estava partido em várias instâncias, bastante desfragmentado e solto, assim como parte do sentido da vida. As lágrimas começaram a cair e eu dei outro soco na cara do puto, agora ele caiu bem nos meus pés e dei-lhe dois chutes. Eu chorava, mas batia com força pra machucar, pra deixá-lo o mais perto possível do que eu considerei ser a justiça. Se a mãe do meu Téo estava morta.. o equilíbrio seria..

- QUE PORRA É ESSAAA!!?

Alguém entrou por trás e me derrubou no chão por cima do meu irmão. Chorando, me sujei todo com o sangue derramado e ele também já tava todo torto e as lágrimas rolando. Entre nós, meu pai abraçado em cada um.

- NÃO PODE ISSO, MEU DEUS! NÃO PODE, OLHA O QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO!

Eu não soube o que dizer. Parece que só aí voltei a mim e reparei na mão destruída.

- VOCÊS NÃO PODEM DEIXAR A VIOLÊNCIA ACABAR COM VOCÊS! - pai continuou.

Os três chorando muito e abraçados no chão, nós acolhidos pelo colo do nosso velho, mas todos se consolando, filhos da mesma realidade bruta, nua e crua, exposta e corrente nas veias do dia a dia. Talvez quente não fosse eu, talvez quente fosse o chão da cidade.

- A mãe do Téo.. ela morreu naquele assalto! - balbuciei.

Nosso pai abraçou a gente ainda mais firme e ficamos assim um tempo.

- EU NÃO MATEI NINGUÉM, EDU! EU POSSO SER O PIOR TIPO DE PESSOA, MAS EU NUNCA MENTIRIA PRA VOCÊ QUE É MEU IRMÃO, NUNCA! EU NÃO MATEI NINGUÉM!

- Eu sei, eu sei disso! Me desculpa!

Só a chuva sabia de todas as coisas, tanto rolando pelos olhos quanto pelo céu. Nessa tarde, eu soube bem que precisava dela. Então eu saí. Saí de casa, fui dar uma volta. Desci o morro tomado por tristeza, pesar e um pouco de raiva pela vida, mas é aí que as coisas se desenrolam, nos acontecimentos. Existem chacoalhadas que acontecem pra te jogar num lugar específico, justamente por você usar suas experiências pra chegar nesse lugar. Aquela foi a primeira e última vez que desci o morro de forma fria. Nesse meio tempo, todas as peças mexidas até então sofreram o efeito das peças que se mexeram ao redor anteriormente. Meio tempo, tempo, não faz diferença.

Eu sobrevivi ao efeito da passagem de eras. Da mesma maneira que as oportunidades, escolhas e voltas da vida transformaram meu irmão mais velho num bandido, essa energia do tempo também me enriqueceu no andar dos anos. Nem toda experiência pode ser muito fácil, mas o bom é que, quanto maior a perda, maior seu ganho de conhecimento e entendimento da realidade da vida, supondo que você seja uma pessoa que não se entrega frente às piores dificuldades. Confesso que fiquei muitos meses com a imagem do Téo chorando na cabeça, eu mesmo chorei por dias incontáveis até soluçar e ficar seco de tanto pranto. Meu pai ajudou bastante e foi ocupando meus dias com livros e mais livros pra ler e exercitar a mente. A dor demorou, mas foi diminuindo bem lentamente, quase que não mexida e ressentida. Dias entraram em semanas, que entraram em meses e mais meses sem fim. Quando dei por mim, um ano de estudos pesados se transformou em dois anos sem contato com o Téo. Três, quatro.. cinco anos. Nem sinal, nem dica e nem procurando no facebook, só metendo a cara no estudos e desviando dos atalhos traiçoeiros que me eram oferecidos, sendo morador de favela. Dez anos. Eu já estava vivendo outra vida a partir daí. Foram dezesseis longos anos de sangue quente e que nunca mais esfriou na presença do meu ex-melhor amigo. Pra viver a vida do jeito como ela era, eu tive que crescer à força, aprender coisas acima do entendimento só pra poder lidar com perdas e ganhos sem enlouquecer. No fim das contas, isso custou o meu laço mais precioso e talvez o mais sensível.

!REVISADA!

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Parte 1!

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Em breve, lá também terá a sessão de comentários e curiosidades sobre CEREJA!

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Comentários

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03/04/2018 22:01:59
Épico. Essa história foi incrível. Obrigado por isso. Foi muito bom ler essa história.
23/02/2018 23:47:12
Muito bom adorei
06/02/2018 00:02:48
Genten tem nota 1.000?




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